Cientistas da Brown University desvendaram um sinal cerebral oculto capaz de prever a doença de Alzheimer anos antes de seu diagnóstico formal. Esta descoberta, publicada em 12 de janeiro de 2026, revela um padrão de atividade elétrica neural que pode identificar indivíduos com comprometimento cognitivo leve propensos a desenvolver a condição. A abordagem inovadora oferece uma nova esperança para a detecção precoce, crucial para intervenções mais eficazes.
O Alzheimer, a forma mais comum de demência, representa um desafio crescente para a saúde pública global, com milhões de pessoas afetadas e um número esperado de aumento significativo nas próximas décadas. Atualmente, o diagnóstico definitivo muitas vezes ocorre em estágios avançados, quando danos cerebrais irreversíveis já se instalaram, limitando a eficácia dos tratamentos existentes. A capacidade de identificar a doença em sua fase pré-sintomática ou prodrômica é, portanto, um Santo Graal na pesquisa.
A pesquisa da Brown University, em colaboração com a Universidade Complutense de Madrid, Espanha, surge como um avanço notável nesse cenário, focando diretamente na atividade elétrica dos neurônios. Em vez de biomarcadores proteicos no líquor ou sangue, este estudo escuta a “linguagem” do cérebro para antecipar a progressão da doença.
Uma nova janela para a atividade neural
O estudo utilizou a magnetoencefalografia (MEG), uma técnica não invasiva que registra os campos magnéticos produzidos pela atividade elétrica do cérebro com alta precisão temporal e espacial. Diferentemente das abordagens tradicionais que tendem a suavizar e agrupar os sinais neurais, os pesquisadores empregaram uma ferramenta computacional inovadora chamada Spectral Events Toolbox.
Desenvolvida pela equipe da Brown University, essa ferramenta permite dissecar a atividade cerebral em “eventos espectrais” distintos, revelando quando os sinais ocorrem, sua frequência, duração e intensidade. Essa análise detalhada é crucial, pois as metodologias convencionais podem obscurecer informações vitais sobre o comportamento individual dos neurônios. A Spectral Events Toolbox já foi citada em mais de 300 estudos acadêmicos, atestando sua relevância.
A assinatura oculta do Alzheimer no cérebro
Os cientistas concentraram-se na banda de frequência beta da atividade cerebral, conhecida por sua ligação com os processos de memória, e que se mostra particularmente relevante na pesquisa sobre Alzheimer, conforme explicou Stephanie Jones, professora de neurociência na Brown e coautora do estudo, em entrevista ao ScienceDaily. Ao comparar padrões de atividade beta em 85 indivíduos com comprometimento cognitivo leve, que foram monitorados por vários anos, diferenças claras vieram à tona.
Aqueles participantes que desenvolveram Alzheimer em até dois anos e meio apresentaram alterações notáveis em sua atividade beta. Danylyna Shpakivska, primeira autora do estudo, destacou que “dois anos e meio antes do diagnóstico de Alzheimer, os pacientes estavam produzindo eventos beta em uma taxa mais baixa, com duração mais curta e potência mais fraca.” Este é o primeiro estudo a investigar especificamente eventos beta em relação à doença, fornecendo um biomarcador direto da função neuronal.
Enquanto biomarcadores existentes no líquor ou sangue podem identificar placas de beta-amiloide e emaranhados de tau (proteínas que se acumulam no cérebro e são acreditadas como impulsionadoras dos sintomas de Alzheimer), eles não mostram diretamente como as células cerebrais respondem a esses danos. Um biomarcador baseado na própria atividade cerebral oferece uma visão mais direta do funcionamento dos neurônios sob estresse. Isso abre portas para um diagnóstico mais preciso e o desenvolvimento de tratamentos que visem corrigir esses padrões disfuncionais, como aprimorado por estudos sobre a importância do diagnóstico precoce.
A descoberta deste sinal cerebral representa um marco promissor na luta contra o Alzheimer, potencializando a capacidade de um diagnóstico muito mais precoce. Com a replicação desses achados, o Spectral Events Toolbox poderá se tornar uma ferramenta clínica essencial, não apenas para identificar a doença antes do declínio cognitivo significativo, mas também para monitorar a eficácia de novas terapias. A pesquisa agora avança para compreender os mecanismos subjacentes a esses sinais, com o objetivo final de desenvolver intervenções que possam reverter ou retardar a progressão da doença, um passo crucial para a qualidade de vida dos pacientes.









