A administração do ex-presidente dos EUA, Donald Trump, gerou controvérsia em novembro passado ao declarar em sua Estratégia de Segurança Nacional que a Europa estaria à beira de um "apagamento civilizacional", uma afirmação incomum para um documento oficial. Mais surpreendente ainda foi a tese de que o continente europeu, e não a China ou a Rússia, representaria o principal desafio para os Estados Unidos atualmente, atribuindo a imigração como fator crucial para essa suposta "autodestruição societal".
Este posicionamento, detalhado no documento oficial da Casa Branca, alega que "certos membros da OTAN" se tornarão "majoritariamente não-europeus" em poucas décadas, caso as tendências atuais persistam. A estratégia de segurança de 2025 de Trump, que difere significativamente das anteriores, dedicou uma seção a "Promover a Grandeza Europeia", mas o fez com uma visão crítica, focando em questões como a perda de identidade nacional, baixas taxas de natalidade e a influência de organismos transnacionais como a União Europeia, que supostamente minam a liberdade política e a soberania.
Para analistas, essa retórica reflete uma mudança profunda na política externa americana, que passa a ver a Europa não como um aliado incondicional, mas como uma entidade em declínio que precisa ser "corrigida". Segundo informações do www.project-syndicate.org, essa visão ressoa com narrativas nacionalistas do início do século XX, que viam a Rússia como um aliado contra nações europeias mais liberais e os EUA "racial e caoticamente" diversos.
A retórica da imigração e o declínio europeu
As preocupações da administração Trump com a Europa estão intrinsecamente ligadas à questão da imigração, que é descrita como uma "invasão horrível" que está "matando" o continente. O documento da Estratégia de Segurança Nacional aponta que as políticas migratórias europeias estão "transformando o continente e criando conflitos", além de serem responsáveis pela "perda de identidades nacionais e autoconfiança".
Essa perspectiva é frequentemente reiterada por Trump em suas declarações públicas, onde ele critica a "lenidade" das políticas europeias e elogia líderes com posturas mais rígidas, como a primeira-ministra italiana Giorgia Meloni. A estratégia sugere que, se as tendências atuais continuarem, a Europa se tornará "irreconhecível em 20 anos ou menos". Essa visão, embora controversa, encontra eco em setores da direita europeia, que também utilizam a retórica da "defesa da civilização" contra a "substituição cultural".
Uma nova ordem transatlântica: Rússia, Hungria e o "America First"
A abordagem de Trump em relação à Europa também se manifesta em seu desejo de redefinir alianças e prioridades. A Estratégia de Segurança Nacional, embora descreva a Europa como "estrategicamente e culturalmente vital", propõe "cultivar a resistência à trajetória atual da Europa dentro das nações europeias". Isso implica um apoio velado a partidos de direita e movimentos nacionalistas no continente, que compartilham de suas preocupações com imigração e soberania nacional.
Em contraste com a visão de uma Europa em declínio, a administração Trump tem demonstrado uma abertura a países como a Rússia e a Hungria, vendo-os como aliados em uma frente comum contra o que percebe como uma Europa excessivamente liberal. A estratégia busca "restabelecer a estabilidade estratégica com a Rússia" e, em alguns casos, propôs soluções para conflitos como a guerra na Ucrânia sem o envolvimento direto de Kiev ou de aliados europeus, favorecendo demandas russas. Essa política de "America First" isolacionista em relação à Europa e, ao mesmo tempo, expansionista nas Américas, tem gerado apreensão entre os líderes europeus, que veem a aliança transatlântica sob pressão sem precedentes.
A visão de Donald Trump sobre a Europa, articulada em sua Estratégia de Segurança Nacional, representa um divisor de águas nas relações transatlânticas. Ao focar na imigração como uma ameaça existencial e ao alinhar-se com visões nacionalistas e iliberais, a administração Trump desafia os pilares da cooperação pós-guerra. Os desdobramentos futuros dependerão da capacidade da Europa de consolidar sua própria identidade e defender seus valores em um cenário global cada vez mais polarizado, onde a lealdade dos aliados tradicionais se mostra menos garantida.










