Em agosto de 2019, o então presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, confirmou publicamente seu interesse em adquirir a Groenlândia, um território autônomo dinamarquês, descrevendo a intenção como um “grande negócio imobiliário”. A proposta, no entanto, foi prontamente rejeitada pela primeira-ministra dinamarquesa, Mette Frederiksen, que a classificou como “absurda”, gerando um impasse diplomático e levantando questões sobre a soberania e a importância estratégica da ilha ártica.

A ideia de Trump, embora inicialmente vista como excêntrica por muitos, revelou a persistente visão estratégica dos Estados Unidos sobre a Groenlândia, um território que já foi alvo de interesse americano no passado. Esta não foi a primeira vez que Washington buscou a compra da maior ilha do mundo, evidenciando um cálculo geopolítico que transcende a administração presidencial.

A discussão reacendeu o debate sobre a crescente importância do Ártico no cenário global, impulsionada por mudanças climáticas que abrem novas rotas marítimas e pela corrida por recursos naturais. A Groenlândia, com sua posição geográfica privilegiada e vastas reservas minerais, torna-se um ponto focal em uma região de crescente rivalidade entre grandes potências como Rússia e China.

A Groenlândia no tabuleiro geopolítico global

A relevância estratégica da Groenlândia para os Estados Unidos é inegável, especialmente no contexto da segurança nacional e da projeção de poder no Ártico. A ilha abriga a Base Espacial de Pituffik (anteriormente Base Aérea de Thule), uma instalação militar americana crucial para a defesa e vigilância do espaço aéreo e detecção de mísseis. Além disso, a região ártica está se transformando em um novo ponto de tensão geopolítica, com Rússia e China expandindo sua presença e investimentos na área.

O controle sobre a Groenlândia ofereceria aos EUA uma vantagem significativa em rotas de navegação, exploração de recursos e capacidade militar. A ilha possui depósitos substanciais de minerais de terras raras, petróleo, gás e outros minerais críticos para tecnologias modernas, como grafite e lítio. A proposta de Trump, contudo, ignorou a complexa relação da Groenlândia com a Dinamarca e o forte senso de identidade de seu povo. A primeira-ministra dinamarquesa, Mette Frederiksen, classificou a discussão como “absurda” e “sem sentido”, enfatizando que a Groenlândia não está à venda e que o povo groenlandês não quer ser norte-americano.

Precedentes históricos e o futuro da influência ártica

O interesse americano na Groenlândia não é um fenômeno recente. Já em 1867, o Departamento de Estado dos EUA explorou a possibilidade de adquirir o território. Mais notavelmente, em 1946, após a Segunda Guerra Mundial, o presidente Harry S. Truman ofereceu à Dinamarca 100 milhões de dólares em ouro pela Groenlândia, uma oferta que também foi recusada. Esses precedentes históricos sublinham a percepção de longa data sobre a importância estratégica da ilha para os interesses americanos. Durante a Segunda Guerra Mundial, os EUA, sob um acordo com o embaixador dinamarquês em Washington, assumiram a defesa da Groenlândia e estabeleceram bases militares.

Hoje, o cenário ártico é ainda mais dinámico. O derretimento do gelo polar, conforme o Arctic Report Card 2023, abre novas rotas de navegação comercial e militar, encurtando distâncias entre continentes. A disputa por influência e recursos na região, que envolve não apenas os EUA e a Dinamarca/Groenlândia, mas também Rússia, China, Canadá e Noruega, intensifica a relevância de cada pedaço de terra e mar. A proposta de Trump, embora fracassada em 2019, serviu como um lembrete contundente da importância da Groenlândia no xadrez geopolítico do século XXI e da necessidade de uma diplomacia mais sensível e respeitosa com a soberania local.

A controversa proposta de Donald Trump para comprar a Groenlândia, reiterada mesmo após sua presidência, expôs a duradoura relevância estratégica da ilha e a crescente disputa por influência no Ártico. A soberania da Groenlândia e a complexidade de suas relações com a Dinamarca foram reafirmadas, com líderes dinamarqueses e groenlandeses rejeitando veementemente a ideia de anexação e alertando que um ataque militar dos EUA a um país da OTAN seria o “fim de tudo”. O episódio deixou claro que a região continuará sendo um palco crucial para a geopolítica global, exigindo um delicado equilíbrio entre os próprios interesses da Groenlândia, as ambições das grandes potências e a necessidade de cooperação internacional para enfrentar os desafios ambientais e de segurança da região.