A euforia inicial pela remoção de Nicolás Maduro, que parecia abrir caminho para um novo futuro político na Venezuela, foi rapidamente substituída por incerteza. Em 3 de janeiro, a líder da oposição María Corina Machado proclamava a “hora da liberdade”, mas poucas horas depois, o cenário mudava drasticamente com o anúncio do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, de que sua administração assumiria o controle do país.

Trump declarou que os EUA “administrariam o país até que pudéssemos fazer uma transição segura, adequada e judiciosa”, conforme análise de Piotr H. Kosicki para o Project Syndicate, publicada em 16 de janeiro de 2026. Essa decisão lançou uma sombra sobre as aspirações democráticas locais e sobre a influência de figuras como Machado, que viu sua liderança ser subitamente marginalizada no processo de transição.

Em vez de empoderar as forças democráticas venezuelanas, a estratégia de Washington pareceu preservar a estrutura de poder chavista, mesmo sem Maduro. Esse movimento gerou confusão e receio tanto na Venezuela quanto entre a diáspora, que aguardavam um retorno ao controle político soberano e genuinamente democrático. A intervenção externa levantou sérias questões sobre a autodeterminação do país.

A intervenção externa e o esvaziamento da oposição

A postura de Donald Trump representa um ponto de inflexão na complexa crise venezuelana. Ao anunciar que os Estados Unidos “administrariam o país”, ele não apenas desconsiderou a capacidade das instituições e líderes venezuelanos de conduzir sua própria transição, mas também minou a credibilidade da oposição democrática. Isso é particularmente evidente no caso de María Corina Machado.

Machado, uma figura proeminente e laureada, esperava liderar o processo de reconstrução democrática, mobilizando apoio tanto interno quanto internacional. No entanto, a decisão de Trump a colocou em uma posição de pouca influência, mesmo após um encontro com o presidente americano que pouco fez para dissipar a incerteza, segundo o artigo de Kosicki no Project Syndicate. A esperança de uma transição liderada por forças internas foi substituída por uma administração externa.

Essa abordagem levanta preocupações significativas sobre o futuro da democracia na Venezuela. Ao invés de fortalecer as instituições democráticas locais e permitir que a sociedade civil e os partidos de oposição assumam um papel central, a intervenção externa pode inadvertidamente prolongar a instabilidade e a dependência de decisões tomadas fora do território venezuelano.

Desafios para a reconstrução democrática na Venezuela

A intervenção americana, embora possa ser justificada por alguns como uma medida para estabilizar a região e evitar um vácuo de poder, cria um precedente perigoso. Ela levanta questões sobre a soberania nacional e a autonomia dos movimentos pró-democracia na Venezuela, que lutam há anos por uma mudança política genuína. A preservação da estrutura de poder chavista, mesmo sem seu líder, sugere uma transição controlada que pode não atender plenamente às demandas por uma democracia robusta e transparente.

Para a oposição venezuelana, o desafio agora é rearticular-se e encontrar uma maneira de reafirmar sua voz e sua legitimidade em meio a essa nova dinâmica. A ausência de um processo de transição verdadeiramente impulsionado por forças internas pode prolongar a instabilidade e dificultar a consolidação de instituições democráticas duradouras, um obstáculo significativo para o futuro da democracia na Venezuela. A liderança de Machado enfrenta um escrutínio renovado.

Ademais, a comunidade internacional observa com atenção as implicações dessa intervenção. O apoio a uma transição democrática na Venezuela deve equilibrar a necessidade de estabilidade com o respeito à autodeterminação do povo venezuelano. A estratégia de Washington será crucial para definir se o país caminhará para uma democracia plena ou para um novo modelo de controle externo.

O cenário atual na Venezuela, marcado pela intervenção americana e o consequente enfraquecimento da oposição, exige uma análise cuidadosa dos próximos passos. A capacidade de María Corina Machado e de outros líderes democráticos de recuperar o protagonismo será crucial para garantir que a promessa de liberdade não se dissolva em um vácuo de poder. O futuro dependerá da habilidade de resgatar a agenda democrática genuinamente venezuelana e de resistir a imposições externas.