A ciência avança na compreensão das alucinações auditivas, um sintoma debilitante da esquizofrenia, com uma nova pesquisa apontando para um possível “glitch” cerebral. Um estudo recente, divulgado em 23 de janeiro de 2026, sugere que o fenômeno de ouvir vozes na esquizofrenia pode derivar de uma falha na forma como o cérebro diferencia pensamentos internos de sons externos, conforme noticiado pelo ScienceDaily. Essa descoberta pode redefinir o entendimento e o tratamento da condição.

Normalmente, o cérebro humano é capaz de prever o som da própria fala interna, atenuando sua resposta a ela. Contudo, em indivíduos que experimentam alucinações auditivas, a atividade cerebral se intensifica, como se a voz percebida pertencesse a outra pessoa. Esta inversão no padrão de resposta neural oferece uma nova lente para observar os mecanismos subjacentes à psicose.

A pesquisa, liderada por psicólogos da UNSW Sydney, corrobora uma teoria de décadas na saúde mental e aponta para a identificação de marcadores biológicos da esquizofrenia. Atualmente, a condição carece de exames específicos que a identifiquem, tornando essa linha de investigação crucial para diagnósticos futuros.

A fala interna e a confusão cerebral

O Professor Thomas Whitford, da Escola de Psicologia da UNSW, dedicou anos ao estudo da fala interna em indivíduos saudáveis e naqueles com transtornos do espectro da esquizofrenia. “A fala interna é a voz na sua cabeça que narra silenciosamente seus pensamentos”, explica Whitford, destacando a sua prevalência, muitas vezes inconsciente, na maioria das pessoas.

Os achados do seu grupo indicam que, ao nos engajarmos na fala interna, a região do cérebro que processa sons externos demonstra uma redução de atividade.

Essa diminuição ocorre porque o cérebro antecipa a própria voz. Para quem ouve vozes, contudo, essa antecipação falha. “Em pessoas que ouvem vozes, essa redução de atividade não acontece. Seus cérebros reagem ainda mais fortemente à fala interna, como se viesse de outra pessoa”, detalha Whitford. Essa reação exacerbada pode ser a razão pela qual as vozes parecem tão reais e intrusivas.

Decifrando o mecanismo de previsão cerebral

Para investigar a hipótese, pesquisadores realizaram um estudo com eletroencefalografia (EEG) em três grupos: 55 pessoas com transtornos do espectro da esquizofrenia com alucinações recentes; 44 indivíduos com esquizofrenia sem histórico recente de alucinações; e 43 participantes saudáveis.

Os participantes usavam um capacete de EEG e ouviam sons, sendo instruídos a imaginar dizer “bah” ou “bih” silenciosamente enquanto um som correspondente era reproduzido.

Nos participantes saudáveis, a atividade cerebral diminuiu no córtex auditivo – área que processa som e fala – quando a sílaba imaginada correspondia ao som ouvido. Isso aponta para um mecanismo cerebral que prevê corretamente o som, atenuando sua resposta, como na fala normal.

Em contraste, nos participantes com alucinações recentes, o padrão foi inverso. Seus cérebros reagiram com mais intensidade quando o som imaginado coincidia com o externo, um contraste direto com o grupo saudável.

Essa reversão indica disfunção no mecanismo de previsão cerebral, possivelmente a raiz das alucinações. O estudo foi publicado no periódico Schizophrenia Bulletin.

A compreensão de que um erro na previsão cerebral pode estar por trás das alucinações auditivas representa um avanço significativo. Essa perspectiva abre portas para diagnósticos precoces e tratamentos mais direcionados, focando na recalibração dos mecanismos de auto-reconhecimento da fala interna.

Embora mais pesquisas sejam necessárias, a identificação desse “glitch” oferece uma base sólida para futuras intervenções que visem melhorar a qualidade de vida de pessoas afetadas pela esquizofrenia.