A recente ação dos Estados Unidos na Venezuela, culminando na captura do presidente Nicolás Maduro em 3 de janeiro de 2026, desencadeou uma onda de condenação internacional e levantou sérias questões sobre a frágil ordem internacional global. A operação, que incluiu bombardeios em Caracas, foi amplamente classificada como uma violação do direito internacional, gerando um debate acalorado sobre os limites da soberania e o futuro do multilateralismo.
Desde o pós-Segunda Guerra Mundial, a ordem internacional liberal tem sido o alicerce para a estabilidade global, fundamentada em princípios como o multilateralismo institucionalizado, o livre comércio e o respeito aos direitos humanos. Contudo, a intervenção americana na Venezuela, justificada por Washington como uma resposta a violações de direitos humanos e um meio de controle sobre a indústria petrolífera, colocou esses pilares sob intensa pressão.
Para analistas como Carla Norrlöf, em seu artigo para o Project Syndicate, a questão central não é se a ordem internacional está em colapso, mas sim o que essa intervenção revela sobre seu futuro. Segundo Norrlöf, embora a ordem não vá ruir subitamente, sua sustentação será mais custosa e demandará ações discricionárias mais frequentes dos EUA, tornando incertos os limiares para futuras intervenções.
Afronta ao direito internacional e soberania nacional
A comunidade internacional reagiu de forma veemente. O Escritório do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos afirmou que a ação dos Estados Unidos na Venezuela é uma violação do direito internacional, tornando o mundo menos seguro. Ravina Shamdasani, porta-voz do Alto Comissariado da ONU, destacou que a operação minou um princípio fundamental: a proibição de ameaçar ou usar a força contra a integridade territorial ou a independência política de qualquer Estado.
O Brasil, por meio de seu embaixador na ONU, Sérgio França Danese, condenou a ação, classificando-a como uma “linha inaceitável” e um “precedente perigoso” para a paz na América do Sul. Diplomatas brasileiros argumentaram que o uso da força evoca capítulos sombrios da história e ameaça os esforços coletivos de preservar a região como uma zona de paz. Rússia, Irã e Colômbia também condenaram o ataque, reforçando a defesa da soberania e da não intervenção.
Especialistas em direito internacional são quase unânimes em classificar a operação como uma violação direta do Artigo 2(4) da Carta das Nações Unidas. A Doutrina Monroe, que os EUA mencionaram em sua Estratégia de Segurança Nacional de 2025 para justificar uma postura mais ativa na região, é vista por muitos como uma revisitação anacrônica que desrespeita a autodeterminação dos povos e a coexistência pacífica.
O futuro da ordem internacional sem regras
A crise da ordem internacional liberal não é um fenômeno recente. Ela tem atravessado transformações profundas em seus pilares, desde as ideias que moldam a política até a fragmentação de instituições internacionais. A intervenção na Venezuela, no entanto, parece consolidar um processo que alguns chamam de “normalização do estado de exceção”, onde a exceção se torna a regra e a “lei do mais forte” pode prevalecer no sistema político global.
A resposta dividida da comunidade internacional à intervenção dos EUA na Venezuela sublinha a fragilidade do multilateralismo. Enquanto alguns países, como a Argentina de Javier Milei, manifestaram apoio, a maioria condenou a ação, ainda que sem uma coordenação unificada para uma resposta robusta. Isso sugere que, embora os EUA continuem centralmente poderosos, como aponta Norrlöf no Project Syndicate, a credibilidade de seus compromissos internacionais está sendo erodida por conflitos internos e ações unilaterais.
A crise na Venezuela, portanto, não é apenas um evento isolado, mas um sintoma de um sistema global em mutação. Ela expõe a tensão entre a hegemonia de uma potência e os princípios do direito internacional, gerando instabilidade na América Latina e reabrindo um ciclo de incertezas sobre a segurança regional. A capacidade da comunidade internacional de reafirmar o primado do direito sobre a força determinará se o mundo caminha para uma ordem internacional sem regras ou se os pilares da cooperação e da soberania ainda podem ser preservados.










