A recente operação militar dos Estados Unidos em Caracas, Venezuela, culminou na captura do presidente Nicolás Maduro, agora em Nova York para enfrentar julgamento por supostos crimes. Esta ação ousada, descrita como “Operação Resolução Absoluta”, reacende o grito de “Yankee Go Home, Again”, ecoando intervenções históricas na América Latina e levantando sérias questões sobre a política externa americana na região, conforme apontado em uma análise de Jorge G. Castañeda no Project Syndicate.

O episódio venezuelano, que lembra eventos como os de Cuba, Porto Rico e Filipinas de 1898, sugere uma possível nova era de intervenção dos EUA, mais ambiciosa do que realista. A justificativa para a ação, que envolve acusações de narcotráfico contra Maduro, marca um ponto de virada após décadas de uma complexa relação entre Washington e os países latino-americanos.

Este cenário contemporâneo força uma reavaliação do papel histórico dos EUA no continente, especialmente à luz da Doutrina Monroe. A doutrina, inicialmente concebida para proteger as Américas da colonização europeia, evoluiu para justificar a hegemonia americana e uma série de intervenções militares e políticas.

O legado da Doutrina Monroe e as intervenções históricas

Instituída em 1823 pelo presidente James Monroe, a doutrina proclamava a “América para os americanos”, visando impedir a interferência europeia no continente. Contudo, ao longo dos séculos XIX e XX, essa premissa foi reinterpretada, servindo como base para a expansão da influência norte-americana e para numerosas intervenções.

O histórico de intervenções dos EUA na América Latina é vasto e multifacetado, abrangendo desde as “guerras da banana” no início do século XX, com ocupações militares em países como Honduras e Nicarágua para proteger interesses econômicos, até o apoio a golpes de Estado durante a Guerra Fria sob a justificativa anticomunista.

Exemplos notórios incluem o apoio ao golpe militar no Chile em 1973 e a invasão do Panamá em 1989. Tais ações, muitas vezes, resultaram em maior instabilidade política e social, como aponta Lindsey O’Rourke em seu livro “Covert Regime Change: America’s Secret Cold War”, que identificou 23 tentativas de derrubar governos na América Latina entre 1949 e 1989.

A crise venezuelana e o cenário atual

A captura de Nicolás Maduro em 3 de janeiro de 2026, sob acusações de narcoterrorismo, marca a primeira intervenção militar direta dos EUA na América Latina neste século. A operação, criticada por especialistas em direito internacional, encerra um período de tensões diplomáticas intensificadas desde a ascensão de Hugo Chávez em 1999 e a declaração da Venezuela como “ameaça à segurança nacional” em 2015.

Com a deposição de Maduro, a vice-presidente Delcy Rodríguez assumiu interinamente a presidência. Surpreendentemente, dias após a operação, a Venezuela anunciou o início de um “processo exploratório” para o restabelecimento das relações diplomáticas com os Estados Unidos, rompidas desde 2019.

Representantes do Departamento de Estado americano viajaram a Caracas para avaliar a retomada gradual das operações da embaixada, enquanto a Venezuela planeja enviar uma delegação a Washington. Este movimento sugere uma busca por estabilização e um possível alinhamento pragmático após a mudança abrupta de governo.

O episódio venezuelano demonstra a persistência da influência americana na América Latina, mas também a complexidade e as imprevisibilidades de tais ações. Enquanto a Doutrina Monroe continua a moldar a percepção de Washington sobre sua esfera de influência, a capacidade de intervenções militares de longo prazo e seus desdobramentos realistas permanecem sob escrutínio. A região, mais uma vez, se vê diante dos ecos de um passado que insiste em retornar, com consequências ainda a serem plenamente compreendidas.