Uma fazenda leiteira em Michigan, nos Estados Unidos, arriscou-se ao cultivar e alimentar suas vacas com um novo tipo de soja de alto teor oleico, e a aposta trouxe resultados rápidos e promissores. Em poucos dias, a qualidade do leite melhorou significativamente, enquanto os custos com ração caíram drasticamente, sinalizando uma inovação na pecuária leiteira que pode redefinir o setor globalmente.

Essa mudança, aparentemente simples, é o ápice de anos de pesquisa da Universidade Estadual de Michigan (MSU), que culminou em uma solução para os produtores substituírem suplementos caros por algo que podem cultivar em suas próprias terras. A demanda por essa variedade de soja já disparou, e especialistas veem nela o potencial para uma transformação geracional na indústria de laticínios.

A soja de alto teor oleico é rica em ácido oleico, um ácido graxo naturalmente presente em gorduras e óleos de origem animal e vegetal. A inclusão dessa variedade na dieta do gado leiteiro promete aumentar os níveis de gordura e proteína no leite, ao mesmo tempo em que eleva a rentabilidade das fazendas, conforme estudos que destacam os benefícios da soja de alto teor oleico para vacas leiteiras.

Impacto imediato e a ciência por trás da soja

A família Preston, responsável por uma fazenda de laticínios de quarta geração no sul de Michigan, dedicou cerca de um terço de suas 1.500 acres ao cultivo da soja de alto teor oleico na primavera de 2024. Brian Preston, gerente de operações, reconheceu o risco, mas os resultados após a colheita foram quase imediatos.

Em apenas três dias, os níveis de gordura e proteína do leite de suas quase mil vacas aumentaram, elevando substancialmente o valor do produto final. Mais notável ainda foi a redução de 20% nos custos mensais com ração, uma mudança que Preston descreveu como “uma vez a cada geração” em entrevista à ScienceDaily.

Por trás desse avanço está a pesquisa liderada por Adam Lock, professor do Departamento de Ciência Animal da MSU, que há mais de uma década investiga a influência das gorduras dietéticas nas vacas leiteiras. Seu trabalho demonstrou que a adição de soja de alto teor oleico à dieta pode não apenas melhorar a composição do leite, mas também a economia das fazendas, como detalha o programa de nutrição de lipídios da Michigan State University.

Estudos adicionais da equipe de Lock confirmaram que a torrefação da soja antes da alimentação pode otimizar ainda mais os benefícios na produção de leite. Essa técnica permite que os produtores substituam suplementos caros, incluindo gorduras e aminoácidos adicionados, por uma fonte de alimento que podem produzir localmente.

Revolução econômica e sustentabilidade na pecuária leiteira

O sucesso da Preston Farms não é um caso isolado. A demanda por sementes de soja de alto teor oleico esgotou os estoques de fornecedores em Michigan no ano passado, refletindo o crescente interesse dos produtores.

Estimativas indicam que a substituição de suplementos caros por soja torrada de alto teor oleico pode gerar uma economia de US$ 0,70 a US$ 1,00 por vaca diariamente. Para uma operação de mil vacas, isso se traduz em mais de US$ 255.000 anualmente em custos de ração, além de um aumento na produção de gordura do leite, conforme reportado por publicações especializadas como The Bullvine.

Essa inovação na pecuária leiteira também alinha-se às crescentes preocupações com a sustentabilidade. Ao permitir que os agricultores cultivem seu próprio alimento, reduz-se a dependência de produtos importados e a pegada ambiental da cadeia produtiva, um tema central para a sustentabilidade na produção de leite.

A pesquisa de Lock e sua equipe é apoiada por financiamento de entidades como o USDA National Institute of Food and Agriculture, a Michigan Alliance for Animal Agriculture, a Michigan Milk Producers Association e o United Soybean Board. Esses investimentos públicos impulsionam inovações com impacto real no setor agrícola.

A introdução da soja de alto teor oleico representa um marco na pecuária leiteira, oferecendo uma solução robusta para os desafios de custos e qualidade. A capacidade de melhorar o perfil nutricional do leite e, ao mesmo tempo, otimizar a rentabilidade das fazendas sinaliza um futuro mais próspero e resiliente para a produção de laticínios. À medida que mais fazendas adotam essa tecnologia, o setor se encaminha para uma era de maior autonomia e eficiência.