Um novo estudo da Universidade de Cambridge reposiciona a compreensão da monogamia entre mamíferos, colocando os seres humanos em um patamar surpreendente: mais próximos de espécies como castores e suricatos do que de chimpanzés. Esta pesquisa desafia percepções anteriores sobre o comportamento reprodutivo humano, sugerindo que a monogamia, ou o estabelecimento de laços de casal de longo prazo, é uma característica distintiva e incomum na nossa espécie, mesmo em culturas que permitem a poligamia.

Por décadas, a discussão sobre a natureza da monogamia humana tem se apoiado em evidências fósseis e estudos antropológicos. Contudo, a nova abordagem comparativa, que analisa a proporção de irmãos completos e meio-irmãos em diversas espécies e culturas, oferece uma métrica mais concreta.

Essa perspectiva inovadora, desenvolvida pelo Dr. Mark Dyble do Departamento de Arqueologia de Cambridge, propõe que a estabilidade dos laços de casal pode ter sido um fator crucial para o sucesso social e evolutivo da humanidade. A pesquisa sugere uma “liga de elite da monogamia” onde os humanos se encaixam confortavelmente.

A medida da monogamia através dos laços de parentesco

Para quantificar os níveis de monogamia, o Dr. Dyble desenvolveu um modelo computacional que examina a proporção de irmãos completos (que compartilham ambos os pais) versus meio-irmãos (que compartilham apenas um dos pais) em diferentes populações. Sociedades ou espécies com maior grau de monogamia tendem a gerar mais filhos com ambos os pais em comum, enquanto sistemas de acasalamento mais poligâmicos ou promíscuos resultam em uma maior proporção de meio-irmãos.

Essa metodologia permitiu ao pesquisador estimar uma classificação de monogamia comparável entre espécies e culturas, abrangendo milhares de anos de história humana. Os dados genéticos analisados incluíram evidências de sítios arqueológicos da Idade do Bronze na Europa e assentamentos neolíticos na Anatólia, combinados com informações etnográficas de 94 sociedades humanas contemporâneas.

Os resultados, publicados na revista Proceedings of the Royal Society: Biological Sciences, indicam que os humanos apresentam uma taxa geral de irmãos completos de 66%. Isso posiciona nossa espécie em sétimo lugar entre os onze mamíferos estudados, firmemente dentro do grupo considerado socialmente monogâmico, com uma clara preferência por laços de casal duradouros.

Posição humana no ranking da monogamia mamífera

A pesquisa aponta que a monogamia humana se alinha com a de animais notavelmente monogâmicos. Suricatos, por exemplo, mostram uma taxa de 60% de irmãos completos, enquanto castores registram 73%, um pouco acima dos humanos. Essas taxas indicam uma forte tendência à monogamia, embora com alguma flexibilidade inerente à natureza.

O gibão-de-mãos-brancas, com uma taxa de monogamia de 63,5%, é a espécie mais similar aos humanos no estudo e a única outra espécie “monotócica” altamente classificada, que tipicamente produz um único filhote por gestação. Outro primata notável na categoria superior é o sagui-de-bigode, que geralmente dá à luz gêmeos ou trigêmeos.

Dr. Mark Dyble, antropólogo evolucionário da Universidade de Cambridge, ressalta que, embora haja uma vasta diversidade transcultural nas práticas de acasalamento e casamento humanas, “mesmo os extremos do espectro ainda se situam acima do que vemos na maioria das espécies não monogâmicas”. Essa constatação reforça a visão de que a monogamia é um padrão de acasalamento dominante para nossa espécie, conforme detalhado em ScienceDaily.

A compreensão de que a monogamia humana é um comportamento incomum no reino animal oferece novas perspectivas sobre a evolução de nossas estruturas sociais e de cooperação. A capacidade de formar laços duradouros pode ter sido um pilar para o desenvolvimento de comunidades complexas e para a capacidade humana de prosperar em diversos ambientes ao redor do globo. Futuras pesquisas poderão explorar como essa característica influenciou a dinâmica familiar e a transmissão cultural ao longo da história.