Quatro em cada dez investidores em criptomoedas no Reino Unido tiveram seus pagamentos bloqueados ou atrasados por bancos ao tentar adquirir ativos digitais. A revelação vem de uma pesquisa recente da IG, conduzida pela Norstat entre 1 e 5 de agosto de 2025, envolvendo 2.500 investidores, destacando uma tensão crescente entre o setor bancário tradicional e o mercado de ativos digitais. Esta prática, frequentemente justificada por questões de prevenção de fraudes, levanta sérias preocupações sobre a autonomia dos consumidores e o futuro da inovação financeira no país.

A atitude cautelosa dos bancos britânicos, que inclui instituições como Chase UK e NatWest, tem sido uma constante, com restrições impostas desde 2021. O cenário atual, onde 40% dos pagamentos são afetados, sublinha a urgência de um quadro regulatório mais claro que possa harmonizar a proteção ao consumidor com o desenvolvimento do vibrante ecossistema cripto. Enquanto o governo do Reino Unido expressa a intenção de transformar o país em um polo global para tecnologia e investimento em criptoativos, as ações dos bancos criam um paradoxo significativo.

A pesquisa da IG Group também revela uma divisão na opinião pública: 42% dos adultos britânicos se opõem à interferência bancária em transações de criptomoedas, contra 33% que apoiam tais medidas. Este descompasso sugere que as justificativas dos bancos para os bloqueios não ressoam universalmente com a população, o que intensifica o debate sobre a real necessidade e o impacto dessas barreiras no mercado.

A lógica por trás dos bloqueios e o vácuo regulatório

Os bancos britânicos frequentemente invocam a prevenção de fraudes como principal motivo para bloquear ou atrasar pagamentos destinados a plataformas de criptomoedas. Contudo, Michael Healy, diretor administrativo da IG no Reino Unido, argumenta que essa ‘intromissão’ dos bancos só é possível devido à ausência de um arcabouço regulatório claro e abrangente para criptoativos no país. Ele descreve a conduta bancária como, na melhor das hipóteses, “anti-consumidor” e, na pior, “anti-competitiva”.

A Autoridade de Conduta Financeira (FCA) atua como o principal regulador, com foco em combater a lavagem de dinheiro e proteger os investidores. Atualmente, a FCA exige que as empresas de criptoativos se registrem como Provedores de Serviços de Ativos Virtuais (VASPs) e proíbe o uso de cartões de crédito para compras de ativos digitais por clientes de varejo. No entanto, um regime regulatório mais robusto está em desenvolvimento, com novas regras previstas para entrar em vigor a partir de 2027, visando tratar criptoativos de forma semelhante a produtos financeiros tradicionais. A FCA também está em fase final de consulta sobre propostas cruciais, com feedback esperado até março de 2026, e planeja abrir inscrições para licenças de provedores de serviços de criptoativos em setembro de 2026.

Impacto nos investidores e o posicionamento do Reino Unido no cenário cripto

Diante dos obstáculos impostos pelos bancos, os investidores em criptomoedas no Reino Unido têm adotado diversas estratégias. A pesquisa da IG Group revela que 35% dos afetados optaram por mudar para um banco diferente que permite transações de criptoativos, enquanto 29% registraram reclamações formais. Outros 22% ajustaram o tamanho de suas transações, e 10% desistiram completamente de investir em criptomoedas. Essas reações demonstram o nível de frustração e a busca por alternativas em um mercado em constante evolução.

Essa situação levou a alertas de figuras proeminentes, como o ex-chanceler George Osborne, que advertiu que o Reino Unido corre o risco de ‘perder a corrida cripto’ e minar seu papel como centro financeiro global. Embora o governo britânico reforce seu compromisso em fomentar a inovação e o crescimento no setor, as restrições bancárias representam um desafio prático que pode frear o avanço. A regulamentação em evolução, com um cronograma para 2026 e 2027, será crucial para determinar se o Reino Unido conseguirá equilibrar a proteção ao consumidor com a promoção de um ambiente favorável para o mercado de criptoativos, garantindo que a ambição não seja ofuscada pelas barreiras existentes.