A ideia de que uma “canetada” governamental pode apagar os efeitos negativos na economia real, como o aumento da dívida pública, é uma ilusão perigosa que ignora as leis fundamentais da macroeconomia. Medidas paliativas e intervenções artificiais frequentemente resultam em deterioração fiscal e cenários de inflação persistente, impactando diretamente o poder de compra e a capacidade de investimento. Economistas alertam que a realidade econômica se impõe, exigindo reformas estruturais e responsabilidade fiscal em vez de atalhos.
O debate sobre a eficácia de intervenções estatais rápidas ganha relevância no cenário econômico brasileiro, marcado por desafios fiscais persistentes. Historicamente, o país já vivenciou ciclos onde a tentativa de controlar preços ou estimular o consumo via subsídios e gastos não financiados culminou em crises mais severas, demonstrando a ineficácia de soluções simplistas para problemas complexos. A dívida bruta do governo geral, que em abril de 2024 alcançou 76% do PIB, segundo dados do Banco Central do Brasil, ilustra a magnitude do desafio e a urgência de uma gestão fiscal prudente.
Essa realidade sublinha a máxima de que não há atalhos para a saúde financeira de uma nação. A confiança dos investidores, a estabilidade dos preços e a capacidade de crescimento sustentável dependem de sinais claros de compromisso com a solidez fiscal. Quando o Estado tenta contornar os princípios econômicos com decretos ou injeções de recursos sem lastro, o custo é invariavelmente pago pela população, seja através da desvalorização da moeda, do aumento do custo de vida ou da estagnação do emprego, aprofundando os efeitos negativos na economia real.
A ilusão da intervenção e a dívida pública
A crença de que decisões políticas podem, por si só, reverter tendências econômicas negativas subestima a interconexão de fatores que moldam o mercado. Quando o governo utiliza a chamada “canetada” para, por exemplo, congelar preços ou expandir gastos sem uma fonte de receita equivalente, gera-se um desequilíbrio que se manifesta em outros pontos da economia. Um dos resultados mais diretos é o aumento da dívida pública, que se torna um fardo para as futuras gerações e limita a capacidade do Estado de investir em áreas essenciais.
Segundo o Tesouro Nacional, o estoque da Dívida Pública Federal (DPF) em maio de 2024 atingiu R$ 6,56 trilhões, um crescimento de 0,69% em relação ao mês anterior. Esse volume expressivo exige gastos crescentes com juros, que desviam recursos que poderiam ser aplicados em saúde, educação ou infraestrutura. Um estudo recente da Fundação Getulio Vargas (FGV) aponta que “a cada medida que ignora o balanço fiscal, estamos trocando um problema imediato por um desafio muito maior no futuro”. A sustentabilidade fiscal é o alicerce para qualquer política de longo prazo que vise o bem-estar social e o desenvolvimento do país.
Os efeitos negativos na economia real e a inflação
Além da dívida, as intervenções artificiais repercutem fortemente na economia real. Um dos mecanismos mais visíveis é a inflação. Quando o governo gasta mais do que arrecada e recorre à emissão de moeda ou ao endividamento excessivo, a oferta de dinheiro na economia aumenta sem um correspondente incremento na produção de bens e serviços. Isso pressiona os preços para cima, corroendo o poder de compra das famílias e desorganizando as decisões de investimento das empresas. O Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), medido pelo IBGE, registrou um acumulado de 3,93% nos últimos 12 meses até maio de 2024, um número que, embora sob controle, pode ser rapidamente desestabilizado por políticas fiscais irresponsáveis e aprofundar os efeitos negativos na economia real.
Empresas enfrentam custos de produção mais altos e incerteza sobre o futuro, o que desestimula novos investimentos e a criação de empregos. Consumidores, por sua vez, veem seus salários valerem menos, dificultando o acesso a bens essenciais e comprometendo a qualidade de vida. A fuga de capital e a desconfiança dos investidores internacionais são outras consequências diretas, dificultando o financiamento externo e a entrada de novas tecnologias. O resultado é um ciclo vicioso de baixo crescimento e instabilidade, onde a “canetada” que prometia solução se revela a raiz de novos problemas.
A lição que emerge da análise econômica é clara: não há mágica para os problemas fiscais. A insistência em soluções superficiais para desafios estruturais como o aumento da dívida só aprofunda os efeitos negativos na economia real, tornando a recuperação mais lenta e dolorosa. O caminho para a prosperidade econômica exige responsabilidade fiscal, reformas estruturais que melhorem a produtividade e um ambiente de negócios previsível. Somente com uma abordagem transparente e comprometida com a sustentabilidade de longo prazo será possível construir uma economia mais robusta e resiliente aos choques, protegendo o poder de compra da população e garantindo um futuro mais estável.












