Uma recente publicação da NASA sobre a história da aviação reacendeu uma antiga disputa, gerando forte reação no Brasil ao ignorar o pioneirismo de Alberto Santos Dumont na invenção do avião. A agência espacial norte-americana, em seu material comemorativo, atribuiu a primazia do voo motorizado aos irmãos Wright, uma narrativa que historicamente diverge da visão brasileira e de parte da comunidade internacional.

A controvérsia não é nova, mas ganha força quando endossada por uma instituição do calibre da NASA, especialmente em um momento de intensa valorização de heróis nacionais. Para muitos brasileiros, Santos Dumont é inequivocamente o “Pai da Aviação”, não apenas por ter realizado um voo controlado e autônomo, mas por fazê-lo em condições publicamente verificáveis e sem o auxílio de catapultas, como o feito pelos irmãos Wright.

Essa diferença fundamental na forma como os primeiros voos foram conduzidos e documentados alimenta a discórdia há mais de um século. Enquanto a versão americana se consolidou globalmente, a perspectiva brasileira, pautada em evidências e testemunhos da época, resiste a essa homogeneização histórica, defendendo a primazia do inventor mineiro.

A disputa histórica pelo primeiro voo autônomo

A essência da discórdia reside na definição de “primeiro voo”. Em 17 de dezembro de 1903, Orville Wright realizou um voo com o Flyer I em Kitty Hawk, Carolina do Norte, nos Estados Unidos. Embora seja amplamente reconhecido, o voo dos irmãos Wright utilizou um sistema de trilhos e catapulta para decolar, e não foi testemunhado por um público amplo e independente, segundo o Smithsonian Magazine. Além disso, o controle do avião era feito por meio de um sistema de torção das asas, que demandava grande destreza do piloto.

Em contraste, em 23 de outubro de 1906, em Paris, Alberto Santos Dumont pilotou o 14-Bis em um voo público e autônomo, sem o auxílio de catapultas ou trilhos. O voo, que percorreu cerca de 60 metros a uma altura de 2 a 3 metros, foi registrado por uma multidão e por membros do Aeroclube da França, que atestaram o feito. Meses depois, em 12 de novembro, Dumont voou 220 metros a 6 metros de altura, estabelecendo um novo recorde. “O voo do 14-Bis foi o primeiro de um aparelho mais pesado que o ar a decolar por meios próprios, sem assistência externa, e a ser documentado publicamente,” explica o Museu Aeroespacial da Força Aérea Brasileira.

A controvérsia se aprofunda na interpretação das regras da Fédération Aéronautique Internationale (FAI), que, na época, considerava o voo do 14-Bis como o primeiro a cumprir todos os requisitos de decolagem e pouso autônomos, sob supervisão oficial. A postura da NASA, ao endossar a narrativa dos Wright sem contextualizar as nuances técnicas e históricas, é vista por muitos como uma desconsideração da pesquisa e dos registros internacionais que apoiam Santos Dumont.

O peso da narrativa e a identidade nacional brasileira

A reação brasileira à publicação da NASA reflete mais do que uma simples discordância histórica; ela toca em um ponto sensível da identidade nacional. Santos Dumont não é apenas um inventor; ele é um símbolo de engenhosidade e perseverança para o Brasil. A figura do “Pai da Aviação” está enraizada na cultura popular, em livros didáticos e na memória coletiva, representando um momento de destaque do país no cenário tecnológico global.

Para o historiador da aviação, Dr. Cláudio R. Andrade, “a insistência em uma única narrativa, especialmente vinda de uma instituição tão influente quanto a NASA, desvaloriza o rigor histórico e a complexidade dos primeiros experimentos aéreos. É fundamental reconhecer que a aviação teve múltiplos pioneiros e desenvolvimentos paralelos, e que a contribuição de Santos Dumont foi singular e revolucionária em seu contexto.” Essa perspectiva é ecoada por diversas análises em veículos de imprensa, que frequentemente abordam a paixão brasileira pelo inventor.

A publicação da NASA, portanto, não é apenas um relato factual, mas um reforço de uma narrativa que, para o Brasil, significa o apagamento de uma parte importante de sua história científica e tecnológica. A irritação surge do sentimento de que a contribuição de um de seus maiores inovadores está sendo marginalizada por uma visão hegemônica que ignora evidências e o contexto em que os voos pioneiros foram realizados.

A persistência dessa controvérsia demonstra a complexidade da história da ciência e da tecnologia, onde o reconhecimento muitas vezes se entrelaça com narrativas nacionais e geopolíticas. Enquanto a NASA mantém sua posição, o Brasil continua a celebrar Santos Dumont, um pioneiro cuja audácia e inovação são consideradas pilares da aviação moderna, independentemente das interpretações alheias. O debate, longe de ser meramente acadêmico, sublinha a importância de narrativas históricas plurais e do reconhecimento das diversas contribuições para o progresso humano.