Um novo estudo desafia a percepção comum de que a idade avançada dificulta a recuperação de lesões na medula espinhal. Publicada recentemente na revista Neurology, a pesquisa revela que, enquanto a capacidade dos nervos de se curarem permanece consistente em todas as faixas etárias, pacientes mais velhos enfrentam obstáculos significativos para recuperar a independência funcional, como caminhar e realizar atividades diárias.
A incidência de lesões medulares tem crescido entre adultos mais velhos, um reflexo do aumento da expectativa de vida e avanços na medicina. Este cenário intensifica a urgência de compreender como a idade interage com o processo de reabilitação. A doutora Chiara Pavese, da Universidade de Pavia, na Itália, coautora do estudo, destaca que, apesar dos progressos cirúrgicos e médicos, a taxa de recuperação após essas lesões se manteve estável. Seus resultados podem orientar a criação de terapias mais eficazes e personalizadas para cada faixa etária.
O estudo, que analisou 2.171 pacientes com lesões na medula espinhal, com uma média de 47 anos, acompanhou a recuperação por um ano. Os participantes foram admitidos em unidades de tratamento da medula espinhal na Europa. A análise minuciosa das habilidades físicas e funcionais permitiu aos pesquisadores traçar um panorama detalhado da influência da idade no prognóstico e na recuperação medular.
A recuperação nervosa não vê idade
A principal descoberta do estudo é que a recuperação medular da função nervosa não é significativamente afetada pela idade. Pacientes mais velhos demonstraram ganhos de força motora e sensibilidade, como a capacidade de sentir toques leves ou picadas, em níveis comparáveis aos indivíduos mais jovens. Estes achados, conforme relatado pelo portal ScienceDaily, sugerem que a capacidade intrínseca do corpo de reparar danos nervosos após uma lesão na medula espinhal se mantém relativamente constante, independentemente da faixa etária. Isso abre portas para abordagens terapêuticas que podem focar na regeneração nervosa sem a barreira da idade como um fator limitante, um avanço promissor para a medicina regenerativa.
Desafios na autonomia funcional para idosos
Contrariamente à recuperação nervosa, a autonomia funcional apresenta uma dinâmica diferente com o avançar da idade. Adultos mais velhos enfrentam maiores dificuldades para retomar a independência em atividades cotidianas, como alimentação, higiene pessoal, controle da bexiga e intestino, e mobilidade. Testes de caminhada revelaram um progresso menos significativo entre os idosos, mesmo com o uso de auxílios como bengalas.
A pesquisa indica que, para cada década adicional de idade, há uma diminuição de 4,3 pontos na melhora da escala de independência em atividades diárias. Essa queda é ainda mais acentuada em indivíduos com mais de 70 anos, para quem a reabilitação precisa considerar condições coexistentes como doenças cardiovasculares, diabetes ou osteoporose, segundo a Dra. Pavese em entrevista à American Academy of Neurology. A complexidade da reabilitação pós-lesão em pacientes idosos exige uma abordagem integrada que contemple não apenas a lesão original, mas também o quadro clínico geral do indivíduo.
A distinção entre a recuperação da função nervosa e a autonomia funcional é crucial para o desenvolvimento de estratégias de reabilitação mais eficazes. Enquanto a cura dos nervos em si não é barrada pela idade, a reabilitação para idosos deve ser multifacetada, abordando não apenas a lesão, mas também comorbidades e as necessidades específicas de mobilidade e autocuidado. O futuro da recuperação pós-lesão medular dependerá de programas que reconheçam e integrem essas diferenças, garantindo que todos, independentemente da idade, possam aspirar à maior qualidade de vida possível e à máxima autonomia funcional.












