A tendência de vídeos “Get Ready With Me” (GRWM) com representações satíricas de agentes do Serviço de Imigração e Alfândega dos EUA (ICE) tem ganhado força no TikTok, transformando um formato popular em uma ferramenta de crítica social. Estes vídeos, que parodiam a rotina de um agente da ICE, surgem em um momento de intensa controvérsia e escrutínio público sobre as operações da agência.
Longe dos tutoriais de maquiagem e moda que popularizaram o GRWM, criadores de conteúdo utilizam o humor ácido para abordar questões políticas e sociais complexas. A abordagem, que inclui piadas sobre assédio a imigrantes e batidas policiais, reflete um descontentamento crescente com a atuação da ICE e suas políticas. O fenômeno demonstra como plataformas digitais se tornam palcos para o ativismo e a expressão de desaprovação popular.
A viralização desses conteúdos não é acidental, mas sim um reflexo direto de eventos recentes que abalaram a confiança pública na agência. O assassinato de Renee Good por um agente da ICE em Minneapolis, em 7 de janeiro de 2026, catalisou uma onda de protestos e discussões online, fornecendo o pano de fundo para a proliferação desses vídeos.
A ascensão da sátira em meio à controvérsia
A morte de Renee Good, manifestante de 37 anos, durante uma operação da ICE em Minneapolis, gerou vasta repercussão e aprofundou o debate sobre a conduta dos agentes federais. O agente Jonathan Ross, envolvido no incidente, foi defendido por figuras como o vice-presidente JD Vance e a Secretária de Segurança Interna Kristi Noem, que classificaram a ação de Good como “ato de terrorismo doméstico”.
No entanto, autoridades locais, incluindo o prefeito de Minneapolis, Jacob Frey, e o chefe de polícia Brian O’Hara, contestaram veementemente essa narrativa, demandando maior responsabilidade da agência.
Os vídeos “GRWM como agente da ICE” capitalizam essa polarização, satirizando a imagem da agência. O comediante Adam Macias, por exemplo, inicia seu esquete com a frase: “Arrume-se comigo como um completo pedaço de merda de agente da ICE”, prosseguindo com cenas que zombam das práticas da agência.
Ele aborda a dificuldade de “se limpar” após o banho e a intenção de deportar um vizinho. Outro criador, em um vídeo com quase 3 milhões de visualizações, ironiza sobre a possibilidade de “espancar uma mulher grávida”, aludindo a incidentes anteriores envolvendo a detenção de mulheres grávidas pela ICE. Tais representações gráficas e humorísticas servem como denúncia e catarse para a população.
A agência tem enfrentado um período de críticas intensas. Em 2025, a ICE registrou o maior número de mortes sob sua custódia em mais de duas décadas, com 32 óbitos. Dados revelaram que cerca de 75% das 68.440 pessoas detidas em dezembro de 2025 não tinham condenações criminais.
Esse cenário alimenta a percepção pública de uma agência que opera com excesso de força e falta de transparência, tornando-a um alvo fértil para a sátira nas redes sociais.
TikTok como palco para o ativismo digital
A plataforma TikTok, conhecida por seus vídeos curtos e virais, tem se consolidado como um espaço crucial para o ativismo e a comédia política. O formato GRWM, que originalmente envolvia influenciadores compartilhando suas rotinas, foi ressignificado para amplificar mensagens de protesto.
A capacidade de criar e compartilhar conteúdo rapidamente permite que os usuários respondam a eventos atuais em tempo real, moldando a opinião pública e incentivando o diálogo. A geração Z, em particular, utiliza a plataforma para expressar descontentamento e engajar-se em discussões sobre justiça social e direitos humanos.
A sátira política no TikTok vai além da mera zombaria, funcionando como um espelho que reflete as tensões e contradições da sociedade. Ao usar o humor para criticar instituições poderosas como a ICE, criadores de conteúdo desmistificam sua imagem e incentivam uma análise mais profunda de suas ações.
Este tipo de ativismo digital, embora por vezes controverso, é eficaz em capturar a atenção de milhões e em manter temas politicamente carregados na pauta pública, conforme observado em outras tendências de sátira online.
A facilidade de consumo e a natureza compartilhável dos vídeos do TikTok garantem que essas mensagens atinjam um público vasto e diversificado, muitas vezes transcendendo barreiras geográficas e demográficas.
A rápida disseminação de vídeos como os “GRWM como agente da ICE” ilustra o poder das redes sociais em catalisar movimentos sociais e em fornecer uma voz para aqueles que buscam desafiar o status quo.
A tendência dos vídeos “GRWM como agente da ICE” no TikTok é mais do que um mero fenômeno de internet; ela representa uma forma potente de ativismo digital e sátira política. Ao transformar um formato de conteúdo leve em uma ferramenta de crítica contundente, os criadores não apenas divertem, mas também provocam reflexão.
Eles mantêm o debate sobre as práticas da ICE em evidência. A evolução dessas tendências sugere que as plataformas digitais continuarão a ser espaços vitais para a expressão social e política, forçando instituições a confrontarem o escrutínio público em formatos inovadores e muitas vezes inesperados.









