Uma nova e contundente onda de vídeos ‘Get Ready With Me’ (GRWM) está dominando o TikTok, mas, desta vez, o foco não é maquiagem ou moda. Criadores de conteúdo estão satirizando agentes do U.S. Immigration and Customs Enforcement (ICE), transformando uma tendência popular em uma forma de protesto digital. Essa virada humorística e crítica surge em um momento de intensa controvérsia e escrutínio público sobre as operações da agência, especialmente após um recente incidente fatal em Minneapolis.

A trend, que originalmente mostrava pessoas se arrumando para o dia, agora serve como um palco para o descontentamento social. Vídeos como o do comediante Adam Macias, que se prepara como um “agente do ICE absolutamente desprezível”, acumulam centenas de milhares de visualizações, expondo o sentimento de revolta. A sátira aborda desde a rotina diária fictícia de um agente até referências a incidentes polêmicos, como a detenção de uma mulher supostamente grávida.

A tragédia de Minneapolis e a polarização em torno do ICE

A ascensão desses vídeos satíricos no TikTok é diretamente impulsionada pela crescente insatisfação pública com o ICE, exacerbada por eventos recentes. Em 7 de janeiro de 2026, o agente do ICE Jonathan Ross atirou fatalmente em Renee Good, uma mãe de 37 anos, durante uma operação em Minneapolis. O incidente gerou uma onda de indignação nacional e protestos, tanto online quanto offline, incluindo um grande comício “ICE out of Minnesota”.

As narrativas em torno da morte de Renee Good são profundamente divididas. Enquanto o vice-presidente dos EUA, JD Vance, defendeu a ação do agente como legítima defesa, alegando que Good tentou usar seu veículo como arma, vídeos do incidente parecem contradizer essa versão oficial. Imagens mostram o SUV de Good se afastando lentamente dos oficiais antes dos disparos, levantando sérias questões sobre o uso da força letal. Jonathan Ross, o agente envolvido, é um veterano de guerra com um histórico de incidentes anteriores em operações de imigração.

A percepção pública do ICE tem se deteriorado significativamente. Uma pesquisa YouGov de janeiro de 2026 revelou que 52% dos americanos desaprovam a agência, e a maioria considera suas táticas excessivamente agressivas. O ano de 2025 foi o mais letal para o ICE em mais de duas décadas, com 32 mortes sob custódia, e o governo Trump planeja intensificar as operações em 2026, com um foco crescente em fiscalizações internas, incluindo fazendas e fábricas.

TikTok como plataforma de ativismo e desinformação

O TikTok não é apenas um palco para a sátira, mas também um ecossistema complexo onde o ativismo e a desinformação se entrelaçam. A plataforma tem sido usada por influenciadores para alertar imigrantes indocumentados sobre operações do ICE, utilizando códigos como “botas de inverno fofas” ou “caminhões de sorvete” para evitar a detecção e a censura. Recursos como “People Over Papers”, um mapa colaborativo de avistamentos de agentes, exemplificam o poder da mobilização digital.

Contudo, a mesma facilidade de disseminação de conteúdo que impulsiona o ativismo também facilita a propagação de notícias falsas. Já foram identificados vídeos de “invasões” falsas do ICE que prejudicaram negócios, e conteúdo gerado por inteligência artificial (IA) que tenta deslegitimar protestos, alegando que manifestantes são “pagos”. A imigração, de fato, se tornou um dos temas mais visados pela desinformação nas redes sociais, com um aumento de 200% em conteúdos desinformativos entre 2024 e 2025, de acordo com um estudo do MediaLab do Iscte – Instituto Universitário de Lisboa.

A polarização em torno da imigração e das ações do ICE se reflete no debate online, onde diferentes lados buscam moldar a percepção pública. A “máquina de fiscalização” de $170 bilhões construída pelo governo Trump, visando reverter os efeitos da imigração da era Biden, intensifica ainda mais essa disputa, com a mídia social desempenhando um papel central na amplificação de narrativas conflitantes e na formação de opiniões.

A trend dos vídeos GRWM de “agentes ICE” no TikTok é um sintoma da profunda polarização política e social que permeia os Estados Unidos. Mais do que simples entretenimento, esses vídeos representam uma forma de expressão popular, um grito de protesto e uma maneira de processar eventos controversos em tempo real. A medida que as tensões em torno da imigração e da atuação de agências como o ICE persistem, é provável que a sátira digital continue a ser uma ferramenta potente para o engajamento cívico, a crítica e, inevitavelmente, o debate acalorado nas plataformas sociais.