A Saks Global, conglomerado que detém as luxuosas lojas de departamento Saks Fifth Avenue, Neiman Marcus e Bergdorf Goodman, entrou com pedido de proteção contra credores (Chapter 11) em meados de janeiro de 2026. A decisão marca um dos maiores colapsos no varejo de luxo dos Estados Unidos desde a pandemia, revelando as profundas fragilidades do setor.
O movimento estratégico ocorre em um momento de crescente incerteza econômica e mudança nos hábitos de consumo, que impactaram diretamente a demanda por bens de alto padrão. O endividamento, resultado de uma ambiciosa fusão em 2024, tornou-se insustentável frente a um mercado cada vez mais volátil.
As dificuldades financeiras da Saks Global não surgiram do nada; elas são um sintoma de pressões estruturais que vêm remodelando o panorama do varejo global. A notícia, que repercutiu em veículos como The Economist, sublinha a complexidade de gerir marcas icónicas em uma era de transformações digitais e expectativas de consumo renovadas.
As raízes do colapso: endividamento e mercado em transformação
A crise da Saks Global tem suas raízes em uma ousada transação de 2024, quando a então controladora, Hudson’s Bay Company (HBC), combinou a Saks Fifth Avenue com suas rivais Neiman Marcus e Bergdorf Goodman. A fusão, avaliada em cerca de 2,8 bilhões de dólares, sobrecarregou a nova entidade com uma dívida colossal de aproximadamente 2,2 bilhões de dólares.
Essa alavancagem excessiva provou ser insustentável em um setor varejista em contração estrutural, como apontou Tim Hynes, chefe global de pesquisa de crédito da Debtwire. A empresa falhou em realizar um pagamento de juros de cerca de 100 milhões de dólares sobre seus títulos em dezembro de 2025, um sinal crítico de alerta que elevou o risco de falência.
Além do endividamento, a Saks Global enfrentou uma diminuição acentuada na demanda por produtos de luxo. Consumidores, mesmo os mais abastados, apertaram os cintos em meio à incerteza econômica, levando a uma queda nas vendas e dificuldades para gerar receita suficiente. Fornecedores, por sua vez, começaram a reter remessas devido a atrasos nos pagamentos, criando lacunas de estoque e afastando clientes.
O desafio do varejo de luxo e a lição da HBC
A situação da Saks Global reflete um desafio mais amplo enfrentado por grandes lojas de departamento e marcas de luxo. A crescente concorrência do comércio eletrônico e a ascensão de marcas que vendem diretamente ao consumidor têm forçado uma reavaliação das estratégias tradicionais. Especialistas em varejo observam que muitas dessas empresas não conseguiram se adaptar rapidamente às mudanças nos hábitos de compra.
Um exemplo notório dessa pressão é a própria Hudson’s Bay Company. Em março de 2025, a HBC, que opera as lojas canadenses da Saks Fifth Avenue sob licença, pediu proteção contra credores no Canadá e, posteriormente, anunciou a liquidação de todas as suas 80 lojas, incluindo as Saks Fifth Avenue e Saks Off 5th no país.
A HBC, a mais antiga varejista do Canadá, citou o consumo enfraquecido, tensões comerciais e a queda no tráfego de lojas pós-pandemia como fatores para sua decisão, que resultou na perda de mais de 9.000 empregos. Analistas, como Jamie Hyodo, da Western University, destacaram a incapacidade da empresa de se ajustar às novas preferências dos consumidores e à demanda por compras online e experiências nas lojas.
A falência da Saks Global, apesar de ter garantido 1,75 bilhão de dólares em financiamento para manter as operações durante a reestruturação, serve como um lembrete contundente dos riscos inerentes ao mercado de luxo em constante evolução. O futuro do varejo de alto padrão dependerá da capacidade das marcas de se reinventarem, equilibrando o legado com a inovação digital e as expectativas de uma nova geração de consumidores.











