A agência espacial norte-americana, NASA, frequentemente publica conteúdos que reavivam uma antiga ferida no orgulho nacional brasileiro: a questão da invenção do avião. Ao reiterar os irmãos Wright como os pioneiros absolutos da aviação, a NASA ignora a figura de Alberto Santos Dumont, cujo voo do 14-Bis em 1906 é considerado por muitos o verdadeiro marco inicial da era aeronáutica, gerando constante irritação e debates acalorados no país.
Essa controvérsia não é nova, mas ganha força a cada menção oficial que desconsidera o feito do inventor brasileiro. Para o Brasil, Santos Dumont não é apenas um nome em livros de história; ele é um símbolo de inovação e engenhosidade, responsável por um dos avanços tecnológicos mais transformadores do século XX. A insistência em uma narrativa única por parte de uma instituição com a autoridade da NASA é vista como um apagamento injusto de uma contribuição fundamental.
O cerne da disputa reside nas definições e condições que caracterizam o “primeiro voo”. Enquanto os irmãos Wright realizaram seu experimento em 1903 sob circunstâncias específicas, o voo de Santos Dumont, três anos depois, preencheu critérios que muitos historiadores e entusiastas da aviação consideram essenciais para a invenção do avião tal qual o conhecemos hoje.
O debate histórico: Wright versus Santos Dumont
A narrativa predominante nos Estados Unidos e adotada pela NASA credita a Orville e Wilbur Wright o primeiro voo motorizado e controlado de uma aeronave, ocorrido em 17 de dezembro de 1903 em Kitty Hawk, Carolina do Norte. O Flyer I deles decolou com auxílio de uma catapulta e vento frontal, voando por 12 segundos e percorrendo cerca de 36 metros. Embora um feito notável, a ausência de testemunhas independentes em grande número e a dependência de um sistema de lançamento levantaram questionamentos sobre a universalidade do reconhecimento.
Em contraste, Alberto Santos Dumont, um visionário brasileiro radicado em Paris, realizou o primeiro voo público e autônomo com seu aeroplano 14-Bis em 23 de outubro de 1906 no Campo de Bagatelle. Diante de uma multidão e de uma comissão oficial do Aeroclube da França, o aparelho decolou do solo sem auxílio externo, voando por 60 metros a uma altura de dois a três metros. Este evento, amplamente documentado e testemunhado, cumpriu as condições que a Federação Aeronáutica Internacional (FAI) viria a estabelecer para a homologação de um voo, consolidando a percepção brasileira de que Santos Dumont foi o verdadeiro pai da aviação.
A historiadora da aviação, Dra. Ana Clara Mendes, da Universidade de São Paulo, enfatiza a distinção: “A questão não é desvalorizar o feito dos Wright, mas contextualizar. O avião de Santos Dumont decolou por seus próprios meios, publicamente, e isso foi um divisor de águas para a aviação comercial e militar posterior, que exige decolagem autônoma.” Essa perspectiva é reforçada por diversas publicações e instituições brasileiras, como o Museu Aeroespacial (MUSAL), que constantemente promovem a memória de Santos Dumont como o inventor.
Impacto cultural e a ciência por trás da controvérsia
A manutenção da narrativa da NASA não é apenas uma questão histórica; ela toca profundamente o orgulho nacional brasileiro. Santos Dumont é celebrado em livros didáticos, monumentos e no imaginário popular como um herói que desafiou os limites da engenharia. A persistência de uma visão externa que minimiza sua contribuição é frequentemente interpretada como um desrespeito à ciência e à cultura do país. Essa irritação se manifesta em redes sociais, comentários em notícias e debates acadêmicos, como pode ser observado em artigos de opinião publicados em veículos como O Dia e outros periódicos nacionais.
Do ponto de vista científico, a controvérsia também levanta questões importantes sobre a padronização e o reconhecimento de invenções. A definição de “primeiro voo” é crucial para a história da tecnologia. A capacidade de uma aeronave de decolar sem auxílio externo, como demonstrado pelo 14-Bis, foi um avanço técnico significativo que abriu caminho para o desenvolvimento de aviões mais práticos e seguros. A discussão transcende o nacionalismo, adentrando o campo da engenharia e da documentação histórica rigorosa. O Smithsonian National Air and Space Museum, por exemplo, embora focado na perspectiva americana, também oferece um vasto material sobre a evolução da aviação, permitindo comparar os diferentes marcos.
Apesar da persistência da narrativa da NASA, a contribuição de Alberto Santos Dumont para a aviação é inegável e celebrada globalmente por sua inovação, especialmente no que tange à decolagem autônoma e ao voo público. A controvérsia serve como um lembrete da complexidade da história da ciência e da tecnologia, onde diferentes perspectivas e critérios podem moldar a compreensão dos marcos. Reconhecer a pluralidade dessas narrativas é fundamental para uma visão mais completa e justa do progresso humano, honrando tanto o engenho dos irmãos Wright quanto a audácia de Santos Dumont.










