Apesar das projeções de uma safra agrícola robusta no Brasil, a desvalorização do real em relação ao dólar surge como um fator crítico que pode anular a esperada trégua nos preços e manter a pressão sobre a inflação de alimentos 2026. Analistas de mercado observam que a força do agronegócio, embora fundamental para a oferta interna, enfrenta o contraponto de um câmbio desfavorável, impactando custos de produção e incentivando exportações. Esse cenário complexo desafia as projeções de estabilidade e adiciona incertezas à trajetória inflacionária.
O setor agropecuário brasileiro tem sido um pilar de resiliência econômica, com sucessivas safras recordes de grãos como soja e milho, conforme dados da Companhia Nacional de Abastecimento (CONAB). Essa abundância de oferta é, em tese, um antídoto natural contra a elevação dos preços dos alimentos no mercado interno, funcionando como um importante atenuante da inflação geral.
Contudo, a dinâmica do câmbio adiciona uma camada de complexidade que pode neutralizar esses ganhos para o consumidor doméstico. A recente volatilidade do real, influenciada por fatores como a política monetária global e as incertezas fiscais internas, tem sido um tema central nas discussões econômicas. Um dólar mais caro não apenas encarece produtos importados, mas também eleva os custos de insumos agrícolas essenciais, como fertilizantes e defensivos, que são cotados na moeda americana. A soma desses elementos cria um ambiente onde a esperada descompressão da inflação de alimentos 2026 pode não se concretizar plenamente, frustrando expectativas de alívio para o bolso do consumidor.
A dualidade da safra e o incentivo exportador
A safra brasileira, cada vez mais eficiente e produtiva, tem garantido um volume considerável de commodities agrícolas. Segundo o Boletim da Safra de Grãos da CONAB, as estimativas para a produção de grãos em 2024/2025 continuam elevadas, consolidando o Brasil como um dos maiores produtores e exportadores mundiais. Essa abundância deveria, em condições normais, levar a uma queda dos preços internos devido à maior oferta. No entanto, o câmbio enfraquecido inverte essa lógica.
Um real desvalorizado torna as exportações brasileiras mais competitivas no mercado internacional. Produtores rurais, ao venderem seus produtos para o exterior, recebem em dólar e convertem para real a uma taxa mais vantajosa. Esse incentivo financeiro pode desviar parte da produção que seria destinada ao consumo interno para os portos, reduzindo a oferta doméstica e, paradoxalmente, pressionando os preços para cima. “A balança entre atender o mercado interno e aproveitar as oportunidades de exportação é diretamente influenciada pelo câmbio”, observa Ana Paula Guimarães, economista-chefe da consultoria Macro Insights. “Mesmo com uma safra farta, se o dólar estiver alto, a tendência é que o produtor priorize a venda para fora, impactando o abastecimento local e a inflação de alimentos 2026.”
O peso do câmbio nos custos e na inflação de alimentos 2026
Além do incentivo à exportação, o câmbio exerce uma pressão direta sobre os custos de produção. A agricultura moderna depende intensamente de insumos importados. Fertilizantes, sementes geneticamente modificadas, defensivos agrícolas e maquinário são frequentemente cotados em dólar. Com a valorização da moeda americana, esses custos para o produtor brasileiro aumentam significativamente. Esse repasse é inevitável e, em última instância, chega à mesa do consumidor.
O Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), principal indicador de inflação do país, reflete essa dinâmica. Embora os alimentos in natura possam ter seus preços contidos pela safra, produtos processados e aqueles que dependem de insumos dolarizados sofrem o impacto direto. As expectativas para a inflação de alimentos 2026, conforme o Boletim Focus do Banco Central, já incorporam esses riscos cambiais, indicando que a trajetória de desinflação pode ser mais desafiadora do que o desejado. A política monetária do Banco Central, ao tentar controlar a inflação geral, precisa ponderar esses fatores de custo e demanda externos.
Apesar da resiliência do agronegócio e da capacidade de produção de alimentos, a economia brasileira permanece vulnerável às flutuações cambiais. A esperança de uma trégua significativa nos preços dos alimentos, impulsionada por safras abundantes, pode ser mitigada pela força do dólar. O desafio para os formuladores de política econômica será gerenciar essa tensão, buscando um equilíbrio que proteja o poder de compra do consumidor sem desincentivar a produção e a exportação agrícola. A vigilância sobre o câmbio e seus impactos nos custos e na demanda exportadora será crucial para a trajetória da inflação de alimentos 2026 e para a estabilidade econômica brasileira nos próximos anos.












