A intensa corrida de investimentos entre os Estados Unidos e a China por domínio tecnológico tem gerado pressões econômicas significativas, colocando em xeque objetivos como a estabilidade financeira e o controle da inflação. Essa dinâmica, que se acentuou no último ano, exige uma desaceleração estratégica para mitigar riscos domésticos e globais.

Ambas as nações consolidaram suas posições como superpotências econômicas, muitas vezes à custa de outras economias, mantendo um crescimento robusto mesmo diante da volatilidade internacional. A busca incessante por supremacia em setores estratégicos, como semicondutores e inteligência artificial, tem impulsionado gastos governamentais e subsídios sem precedentes.

O cenário atual, marcado pela desestabilização da ordem internacional, tem sido ativamente alimentado pelas políticas de líderes como o presidente dos EUA e o presidente chinês, Xi Jinping. Essa competição, embora estimule a inovação, cria um ambiente de incerteza onde a alocação de capital pode se tornar ineficiente e distorcer os mercados globais.

As tensões da corrida de investimentos e seus impactos

A rivalidade na corrida de investimentos EUA China não se limita apenas à tecnologia, mas permeia cadeias de suprimentos e influência geopolítica. Governos de ambos os lados têm injetado trilhões em suas indústrias, visando autossuficiência e liderança global. A China, por exemplo, investiu mais de US$ 47 bilhões em sua indústria de chips e planeja outros US$ 55 bilhões para acelerar a corrida em chips, IA e computação quântica.

Contudo, essa estratégia pode levar a um superaquecimento de setores específicos, criando bolhas e distorcendo a concorrência leal. Empresas chinesas como Alibaba, Tencent e Baidu têm aumentado agressivamente seus investimentos em IA, desafiando as restrições impostas pelos EUA. Essa disputa é vista como uma “corrida espacial do século XXI”, travada com chips, IA e poder computacional.

As políticas de subsídios e barreiras comerciais, embora visem proteger indústrias nacionais, podem elevar custos para consumidores e empresas, contribuindo para pressões inflacionárias. Um economista da Deloitte projeta um aumento da inflação para 4% a 4,5% até o final do ano, em parte devido a esses fatores. A fragmentação da economia global em blocos tecnológicos rivais também ameaça a eficiência e a cooperação multilateral, essenciais para enfrentar desafios comuns, como detalhado em análises sobre produção industrial e dados econômicos.

Estabilidade econômica versus ambição tecnológica

A busca desenfreada por domínio tecnológico colide diretamente com a necessidade de manter a estabilidade econômica interna e global. Altos níveis de investimento público e privado em setores de ponta, muitas vezes com retornos incertos no curto prazo, podem desviar recursos de áreas mais produtivas ou essenciais para o bem-estar social. A China já demonstrou avanços significativos em IA, com empresas como a DeepSeek rivalizando com concorrentes do Vale do Silício.

A inflação, já um desafio global, pode ser exacerbada pela demanda artificialmente elevada e pela reconfiguração custosa das cadeias de valor. Especialistas alertam para o risco de um “overinvestment” que, ao invés de impulsionar o crescimento sustentável, crie vulnerabilidades financeiras. “A prioridade em supremacia tecnológica não deve ofuscar a prudência fiscal e a necessidade de um ambiente econômico global equilibrado”, destaca um analista. A coordenação entre as maiores economias seria fundamental para evitar uma escalada que prejudique a todos.

Para evitar um cenário de instabilidade e fragmentação econômica, é imperativo que Washington e Pequim reavaliem o ritmo e a natureza de sua corrida de investimentos. Uma desaceleração estratégica, focada em cooperação em áreas de interesse comum e em regras claras de comércio e tecnologia, poderia pavimentar o caminho para um crescimento global mais resiliente, conforme apontado por Moreno Bertoldi e Marco Buti em matéria do Project Syndicate.

Apesar das tensões, já houve compromissos para fortalecer a cooperação econômica, como em negociações recentes em Londres, onde China e EUA buscaram reduzir divergências. O futuro da economia mundial dependerá da capacidade dessas duas potências de equilibrar suas ambições com a responsabilidade de manter a estabilidade global, um tema frequentemente debatido em publicações como a Le Monde Diplomatique Brasil. É fundamental que se priorize a colaboração, como a China tem demonstrado ao acolher investimentos estrangeiros, visando um aprofundamento da cooperação comercial e a expansão de investimentos no país.