Vera Songwe, ex-secretária executiva da Comissão Econômica das Nações Unidas para a África (UNECA) e figura proeminente no cenário econômico global, apresentou recentemente uma visão estratégica para acelerar a transição energética e ampliar a produção de energia limpa na África. Sua proposta aborda a necessidade urgente de financiamento inovador, o vasto potencial de recursos renováveis e a importância da integração regional para impulsionar o desenvolvimento sustentável do continente.

A África enfrenta um paradoxo energético: possui recursos abundantes para gerar energia limpa, mas uma parcela significativa de sua população ainda não tem acesso à eletricidade. Cerca de 600 milhões de pessoas vivem sem energia, o que impede o desenvolvimento econômico e social. A visão de Songwe surge como um roteiro crucial para transformar este cenário, alinhando as metas climáticas globais com as necessidades de desenvolvimento do continente.

A demanda por energia na África deve crescer exponencialmente nas próximas décadas, impulsionada pelo crescimento populacional e pela industrialização. Investir em fontes renováveis não apenas atenderá a essa demanda, mas também posicionará a África como um líder na economia verde global, evitando a dependência de combustíveis fósseis e mitigando os impactos das mudanças climáticas, aos quais o continente é particularmente vulnerável.

O desafio do financiamento e soluções inovadoras

A principal barreira para a expansão da energia limpa na África reside no financiamento. Estima-se que o continente necessite de cerca de US$ 100 bilhões anuais em investimentos em energia até 2030 para cumprir suas metas climáticas e de acesso universal à energia, conforme relatório da Agência Internacional de Energias Renováveis (IRENA). Vera Songwe defende uma abordagem multifacetada para mobilizar capital, incluindo parcerias público-privadas robustas e o uso de mecanismos financeiros inovadores.

Ela sugere a criação de instrumentos de financiamento que mitiguem riscos para investidores privados, como garantias de crédito e fundos de capital misto. Além disso, a economista enfatiza a necessidade de reformar a arquitetura financeira global para garantir que os países africanos tenham acesso a capital a custos mais baixos. “Não podemos esperar que a África se desenvolva com custos de capital cinco, seis vezes maiores do que os custos em outras regiões”, afirmou Songwe em painel recente, ressaltando a injustiça do sistema atual.

A emissão de títulos verdes por governos e empresas africanas, a alavancagem de fundos de pensão locais e a colaboração com bancos de desenvolvimento multilaterais, como o Banco Africano de Desenvolvimento, são estratégias essenciais. Estas iniciativas podem desbloquear o capital necessário para construir a infraestrutura energética do futuro, garantindo que os projetos de energia renovável sejam financeiramente viáveis e atraentes.

O potencial transformador da África e a integração

A África possui um dos maiores potenciais de energia renovável do mundo. Com uma irradiação solar que ultrapassa 2.000 kWh/m² anualmente em muitas regiões, o continente tem capacidade para se tornar uma potência solar. O potencial eólico também é vasto, especialmente em áreas costeiras e desérticas, e a energia geotérmica no Vale do Rift oferece uma fonte estável e substancial. Aproveitar esses recursos exige não apenas investimento, mas também uma visão de integração regional.

Songwe argumenta que a interconexão de redes elétricas entre países africanos pode otimizar a distribuição de energia, reduzir perdas e garantir maior estabilidade no fornecimento. Iniciativas como a Área de Livre Comércio Continental Africana (AfCFTA) podem facilitar a harmonização regulatória e o desenvolvimento de mercados de energia transfronteiriços. “A integração regional não é apenas sobre comércio de bens, mas também sobre o comércio de energia, conhecimento e inovação”, pontuou a economista.

A implementação de projetos de grande escala, como parques solares e eólicos, combinada com soluções descentralizadas, como minirredes e sistemas solares domésticos, é crucial para atender tanto às grandes cidades quanto às comunidades rurais remotas. Essa abordagem híbrida garante um acesso equitativo à energia, impulsionando a produtividade agrícola, a educação e a saúde em todo o continente.

A visão de Vera Songwe para impulsionar a energia limpa na África representa um caminho pragmático e ambicioso. Ao focar em financiamento inovador e na exploração do vasto potencial renovável através da integração regional, a África pode não apenas superar seu déficit energético, mas também se estabelecer como um player fundamental na transição energética global, criando empregos, fomentando a industrialização verde e construindo um futuro mais resiliente e próspero para sua população.