A conventional wisdom tem ditado que a Europa falha em produzir gigantes tecnológicos por carência de capital. Contudo, uma análise mais aprofundada, como a apresentada por Antonin Bergeaud, André Loesekrug-Pietri e Jean Tirole no Project Syndicate, revela uma verdade incômoda: o problema não é a escassez de financiamento, mas sim a ausência de escala no mercado europeu.
Esta perspectiva desafia a crença de que mais bilhões seriam a solução mágica para a competitividade tecnológica do continente. Na verdade, o capital de risco europeu demonstra robustez, superando o mercado acionário em rentabilidade a longo prazo em diversas categorias, conforme o relatório “Performance of European Private Equity Benchmark 2024” da Invest Europe. O verdadeiro entrave reside na fragmentação regulatória e nas barreiras administrativas que impedem startups promissoras de expandir-se verdadeiramente por todo o continente.
Desde 2015, a União Europeia tem buscado ativamente criar um Mercado Único Digital, um espaço sem fronteiras que facilitaria o comércio online e a inovação. No entanto, os progressos têm sido lentos, e as barreiras persistentes continuam a sufocar o potencial de crescimento das empresas. A necessidade de uma genuína integração é mais premente do que nunca para que a Europa possa competir globalmente.
A fragmentação do mercado único e o desafio da escala
Apesar dos esforços, a União Europeia ainda opera como uma colcha de retalhos de 27 mercados nacionais, cada um com suas próprias regras e burocracias. Isso cria um ambiente hostil para startups que buscam escalar rapidamente. Relatórios da Comissão Europeia de 2015 já apontavam que apenas 15% dos consumidores europeus compravam online em outro país da UE e somente 7% das PMEs vendiam transfronteiriçamente. Embora esses dados sejam de uma década atrás, a essência do problema da fragmentação persiste, como indicado por análises recentes de 2023 e 2024 que continuam a destacar a necessidade de aperfeiçoar o mercado único.
A complexidade de navegar por diferentes regimes regulatórios, fiscais e administrativos em cada Estado-Membro consome tempo e recursos preciosos que poderiam ser investidos em inovação e crescimento. Essa realidade leva muitas empresas europeias a buscar ambientes mais unificados, como o dos Estados Unidos, para escalar suas operações. A Estratégia Europeia para as Empresas em Fase de Arranque e as Empresas em Fase de Expansão, lançada em maio de 2025, reconhece esses desafios e visa reduzir os prazos administrativos e criar balcões únicos digitais. Propostas como a de um “estado virtual” para startups, que permitiria operar em toda a UE com uma única regra, ilustram a busca por soluções inovadoras para mitigar a burocracia.
Capital existe, mas o acesso à escala global é limitado
É um equívoco pensar que o capital é o gargalo. De fato, a Europa possui poupanças domésticas substanciais que poderiam ser melhor direcionadas para investimentos de risco. No entanto, a dependência do canal bancário para financiamento ainda é alta na Eurozona, em contraste com a maior eficiência dos mercados de capitais nos Estados Unidos, conforme um relatório da MAPFRE Economics de 2024. Essa estrutura limita as opções de financiamento para empresas, especialmente PMEs, que enfrentam dificuldades para crescer e se adaptar.
A Iniciativa Europeia de Campeões Tecnológicos, com 3,85 bilhões de euros, busca investir em “mega fundos” para permitir aportes superiores a 50 milhões de euros em empresas europeias, oferecendo alternativas ao capital norte-americano e buscando criar mais oportunidades de saída para investimentos. Contudo, mesmo com capital disponível e iniciativas de peso, a falta de um mercado verdadeiramente unificado significa que as startups europeias, mesmo as mais promissoras, lutam para atingir a massa crítica necessária para se tornarem líderes globais. A participação global da Europa em pedidos de patentes está em pé de igualdade com os EUA e a China, mas apenas um terço desses pedidos é explorado comercialmente dentro da própria UE.
Para que a Europa possa finalmente colher os frutos de sua capacidade inovadora e de seu capital, é imperativo que as barreiras internas sejam desmanteladas. A criação de um mercado único genuíno, com regulamentações harmonizadas e menos burocracia, é o caminho para transformar o potencial em realidade e permitir que as empresas europeias alcancem a escala necessária para prosperar no cenário global.










