Na Consumer Electronics Show (CES) de 2026, em Las Vegas, uma nova geração de gadgets de saúde com inteligência artificial (IA) foi apresentada, prometendo transformar o autocuidado. Balanças inteligentes que escaneiam os pés para monitorar a saúde cardíaca e rastreadores hormonais para otimizar a concepção foram alguns destaques.

Contudo, a empolgação é acompanhada por crescentes preocupações de especialistas. A precisão desses produtos e a privacidade dos dados coletados geram alertas, especialmente em um cenário de regulamentação flexível para tecnologias de bem-estar.

O cenário para essa onda de inovação é complexo. A Food and Drug Administration (FDA) dos EUA anunciou na feira que relaxará as regulamentações sobre produtos de bem-estar geral de “baixo risco”, como monitores cardíacos e cadeiras de rodas.

Essa medida se alinha a esforços governamentais mais amplos para remover barreiras à inovação em IA. Inclui a revogação de uma ordem executiva anterior que estabelecia salvaguardas e a estratégia do Departamento de Saúde e Serviços Humanos para expandir o uso de IA na saúde.

Embora a IA ofereça benefícios significativos para a indústria da saúde, avaliada em mais de US$ 4,3 trilhões, como na análise de imagens médicas e na otimização de agendas médicas, ela também apresenta riscos substanciais. A capacidade de promover vieses e “alucinar”, fornecendo informações incorretas como fatos, é uma preocupação central que ecoa entre os profissionais da área.

A precisão e a privacidade dos dados em xeque

A principal apreensão de especialistas reside na acurácia das informações fornecidas por esses gadgets e na forma como os dados sensíveis são gerenciados. Marschall Runge, professor de ciência médica na Universidade de Michigan, destaca que a IA, embora excelente na análise de imagens, não substitui um profissional de saúde qualificado.

Cindy Cohn, diretora executiva do grupo Electronic Frontier Foundation (EFF), alerta que a tecnologia não é um médico. Em entrevista à Fast Company, ela ressalta o risco de vieses e de a IA “alucinar”, apresentando dados incorretos como verdade.

Outro ponto crítico é a privacidade. A Lei de Portabilidade e Responsabilidade do Seguro de Saúde (HIPAA), que protege informações médicas, não abrange os dados coletados por dispositivos de consumo. Assim, empresas podem usar essas informações para treinar modelos de IA ou vendê-las a terceiros.

Cindy Cohn observa que é difícil para consumidores rastrear o destino de suas informações, exigindo que “cavem nas letras miúdas para tentar descobrir isso”. Ela considera essa falta de transparência injusta para quem depende desses produtos de saúde.

Inovação com propósito: preenchendo lacunas na saúde

Apesar das ressalvas, os criadores defendem suas inovações como soluções para lacunas no sistema de saúde, garantindo proteção da privacidade. Sylvia Kang, fundadora da Mira, por exemplo, desenvolveu um rastreador hormonal para ajudar mulheres a entenderem sua saúde e o melhor momento para conceber.

Kang descreve seu produto como um “mini laboratório hormonal mundial” e assegura que sua empresa armazena os dados na nuvem, sem compartilhá-los com terceiros, reforçando o compromisso com a privacidade do usuário.

A CES 2026 demonstrou um foco crescente na saúde da mulher, uma área historicamente subfinanciada e subpesquisada. Dispositivos como o Peri, que monitora ondas de calor e suores noturnos para entender a perimenopausa, são exemplos concretos dessa atenção.

Além disso, chatbots de IA como o 0xmd, criado por Allen Au, buscam melhorar o acesso à informação médica em áreas com escassez de médicos. Eles oferecem uma alternativa econômica e uma segunda opinião, sem a intenção de substituir os profissionais de saúde.

A proliferação de gadgets de saúde com IA na CES 2026 sublinha um futuro onde a tecnologia desempenha papel crescente no bem-estar pessoal. Contudo, o entusiasmo com a inovação deve ser temperado por vigilância contínua sobre a precisão e a segurança dos dados.

A necessidade de educação do consumidor é vital, pois ferramentas digitais podem complementar o cuidado médico, mas não são oráculos infalíveis. É crucial que usuários ajam com discernimento e cautela, impulsionando um debate robusto sobre a regulamentação adequada.