A faxineira Maria da Paz e o porteiro Adailton Santana, residentes no Distrito Federal, viram a economia de uma vida se esvair após caírem no intrincado golpe das milhas aéreas arquitetado por Ramon de Souza Barbosa, conhecido como o “Rei das Milhas”. O esquema, que prometia lucros exorbitantes através da compra e venda de milhas, revelou-se uma sofisticada pirâmide financeira, deixando centenas de vítimas em prejuízo e a busca por justiça.

Maria da Paz perdeu R$ 100 mil, enquanto Adailton Santana amargou um prejuízo de R$ 200 mil, valores que representavam anos de trabalho e sacrifício. O “Rei das Milhas” explorava a vulnerabilidade de pessoas em busca de rentabilidade para suas poupanças, utilizando redes sociais para divulgar um estilo de vida luxuoso e apresentar-se como um guru de investimentos. A facilidade aparente e a promessa de retornos rápidos atraíam investidores de diversos perfis, alimentando um ciclo insustentável que, como toda pirâmide, estava fadado ao colapso.

A operação Patmos, da Polícia Civil do Distrito Federal, culminou na prisão de Ramon Barbosa em outubro de 2023, desnudando a fraude que já havia lesado mais de 500 pessoas. Este caso expõe a crescente sofisticação dos golpes financeiros e a urgência de uma maior educação para identificar e evitar armadilhas que mascaram a ilegalidade sob a capa de oportunidades de investimento.

A engenharia do golpe das milhas e a falsa promessa de lucro

Ramon de Souza Barbosa operava sob a fachada de um especialista em mercado de milhas, convencendo suas vítimas a “investir” quantias significativas em um suposto negócio de compra e venda de pontos e milhas aéreas. Ele garantia retornos mensais que variavam de 5% a 10%, percentuais muito acima dos praticados pelo mercado financeiro legalizado e que deveriam, por si só, acender um sinal de alerta. Segundo investigações da Polícia Civil do DF, o dinheiro dos novos “investidores” era utilizado para pagar os rendimentos prometidos aos mais antigos, caracterizando o clássico esquema de pirâmide financeira [G1].

A atratividade do golpe das milhas aéreas residia na aparente simplicidade e na imagem de sucesso projetada por Barbosa. Ele ostentava bens de luxo, viagens e uma vida glamourosa, elementos que serviam para legitimar seu “negócio” e angariar a confiança de novos participantes. A Comissão de Valores Mobiliários (CVM), órgão regulador do mercado financeiro brasileiro, frequentemente emite alertas sobre a atuação de empresas e indivíduos que oferecem investimentos sem a devida autorização, especialmente aqueles que prometem retornos irreais. Em dezembro de 2023, a CVM, por exemplo, emitiu um alerta sobre ofertas irregulares de investimento, um claro indicativo de fraudes como as pirâmides financeiras. Tais esquemas são insustentáveis a longo prazo, dependendo de um fluxo contínuo de novos aportes para se manterem, até que o sistema inevitavelmente rui.

O impacto devastador e a busca por justiça

Para vítimas como Maria da Paz e Adailton Santana, o colapso do esquema significou a perda de anos de poupança, sonhos e planos de vida. A fragilidade emocional e financeira de quem se vê lesado por tais fraudes é imensa, muitas vezes resultando em dívidas e desespero. O Metrópoles destacou a situação dos dois, exemplificando a dor de centenas que viram suas economias desaparecerem nas mãos do “Rei das Milhas” [Metrópoles].

A prisão de Ramon de Souza Barbosa foi um passo importante na responsabilização pelos crimes de estelionato, lavagem de dinheiro e organização criminosa. Contudo, a recuperação dos valores perdidos pelas vítimas é um processo complexo e muitas vezes moroso. Advogados e autoridades recomendam que as vítimas busquem imediatamente a polícia para registrar a ocorrência e procurem orientação jurídica especializada, além de reportar a situação aos órgãos de defesa do consumidor, como o Procon, para fortalecer a ação coletiva contra os golpistas.

O caso do “Rei das Milhas” serve como um doloroso lembrete da importância da vigilância e da educação financeira. A promessa de dinheiro fácil e retornos muito acima da média do mercado é quase sempre um sinal de alerta para golpes. É fundamental que investidores em potencial pesquisem a fundo a idoneidade das empresas e pessoas, consultem órgãos reguladores e desconfiem de qualquer oferta que pareça boa demais para ser verdade. A proteção contra fraudes financeiras começa com a informação e a cautela.