Após dois anos de intensa promoção dos “PCs com IA” como a próxima grande revolução na computação pessoal, a Intel, gigante do setor de chips, fez um ajuste notável em sua estratégia. A empresa reconhece que, por enquanto, a maioria dos consumidores ainda não demonstra grande interesse nas capacidades de inteligência artificial embutidas diretamente nos computadores. Essa mudança de foco foi evidente na CES deste mês, onde a ênfase recaiu sobre aspectos mais tradicionais, como desempenho e duração da bateria, em vez de apenas recursos de IA.
Em janeiro de 2024, na Consumer Electronics Show (CES), a Intel havia declarado o início da “era do PC com IA”, impulsionada por seus processadores Core Ultra. Naquela ocasião, Michelle Johnston Holthaus, então CEO de produtos da empresa, afirmou que a inteligência artificial estava “transformando, remodelando e reimaginando fundamentalmente a experiência do PC”. A visão era de que os processadores equipados com Unidades de Processamento Neural (NPUs) trariam capacidades de IA diretamente para o dispositivo, prometendo maior eficiência e novas experiências de usuário.
Os processadores Intel Core Ultra, lançados em dezembro de 2023, foram de fato os primeiros da empresa a integrar uma NPU, projetada para gerenciar e acelerar tarefas de aprendizado de máquina com maior eficiência energética. Essa arquitetura híbrida, que inclui CPU, GPU e NPU, visava otimizar o desempenho para funções como desfoque de fundo em videochamadas, supressão de ruído e outras aplicações de IA que poderiam rodar localmente, sem depender exclusivamente da nuvem. A Intel chegou a otimizar mais de 500 modelos de IA para rodar em seus processadores Core Ultra, demonstrando um forte investimento nesse ecossistema.
A promessa dos PCs com IA e a visão inicial da Intel
A empolgação em torno dos PCs com IA no início de 2024 era palpável, com a Intel posicionando seus processadores Core Ultra como o motor dessa transformação. A ideia era que a IA no dispositivo permitiria uma nova gama de funcionalidades, desde edição de fotos mais inteligente até assistentes pessoais mais responsivos, tudo isso com maior privacidade e menor latência. A empresa destacou a capacidade da NPU de desafogar tarefas de IA da CPU e GPU, resultando em uma redução significativa no consumo de energia para certas aplicações.
Diversos parceiros da indústria abraçaram a iniciativa, lançando sistemas equipados com os novos chips Core Ultra, com mais de 90 designs comerciais previstos para 2024. A promessa era de que a IA não seria apenas um recurso extra, mas uma parte integrante da experiência do usuário, elevando o desempenho e a eficiência de tarefas cotidianas. A Intel via a IA como um pilar essencial para o futuro da computação, com o PC atuando como uma plataforma central para a inovação em IA.
O choque de realidade: consumidores e os fundamentos do PC
No entanto, na CES 2026, a narrativa da Intel se ajustou. Embora a IA ainda seja um tópico importante, a empresa demonstrou um realinhamento estratégico, colocando maior ênfase em atributos fundamentais do PC, como desempenho e duração da bateria. Jim Johnson, chefe do Grupo de Computação Cliente da Intel, ressaltou em um evento de lançamento na CES que, “com todo o entusiasmo em torno da IA, sempre nos lembramos de que os fundamentos ainda importam”.
David Feng, vice-presidente e gerente geral de segmentos de clientes de PC da Intel, explicou em entrevista à Fast Company que essa mudança de ênfase foi intencional. Ele apontou uma “desconexão entre as pessoas da indústria que estão olhando algumas gerações ou alguns anos à frente, versus o público em geral”. Em outras palavras, os consumidores ainda não veem um valor claro ou casos de uso convincentes que justifiquem a compra de um “PC com IA” especificamente por suas capacidades de inteligência artificial.
A nova linha de processadores Intel Core Ultra Série 3, codinome Panther Lake, lançada na CES 2026, exemplifica essa nova abordagem. Embora ainda sejam plataformas de “AI PC”, os anúncios focaram na entrega de até 60% mais desempenho multithread, gráficos aprimorados e até 27 horas de duração da bateria, destacando as melhorias nos atributos essenciais que os consumidores valorizam. A Intel parece reconhecer que, antes que a IA se torne um diferencial de compra, o PC precisa ser, antes de tudo, um excelente PC.
A jornada dos PCs com IA da Intel reflete um ciclo comum na tecnologia: a antecipação de novas funcionalidades muitas vezes precede a adoção em massa. Embora a IA no dispositivo tenha um potencial inegável, a Intel agora parece focar em construir uma base sólida de desempenho e eficiência, enquanto o mercado amadurece e os casos de uso de IA realmente ressoam com os usuários. O futuro dos PCs com IA dependerá não apenas das capacidades técnicas, mas da capacidade de traduzi-las em benefícios tangíveis e indispensáveis para o dia a dia do consumidor.








