Um fungo mortal que dizimou centenas de espécies de anfíbios pelo mundo pode ter se espalhado globalmente via o comércio internacional de carne de rã, com origem no Brasil. Novas pesquisas apontam para o país sul-americano como o berço da cepa Bd-Brazil, desafiando a teoria anterior e acendendo alertas sobre o transporte de ameaças biológicas ocultas pelo comércio de vida selvagem.

O fungo quitrídio (Batrachochytrium dendrobatidis), conhecido como Bd, é reconhecido por cientistas como um fator crucial por trás da queda populacional de pelo menos 500 espécies de rãs e sapos globalmente.

Diversas variantes genéticas desse patógeno foram identificadas, e o comércio de rãs-touro (Aquarana catesbeiana), nativas da América do Norte e criadas para consumo, tem sido associado à sua dispersão. A introdução dessas rãs no Brasil, a partir da década de 1930, criou novas rotas para o fungo cruzar fronteiras.

Uma origem brasileira reexaminada

A cepa Bd-Brazil, nomeada em 2012, teve sua origem contestada. Um estudo de 2018 na revista Science sugeriu que a cepa teria emergido na Península Coreana, levando à sua renomeação como Bd-Asia-2/Bd-Brazil.

Contudo, achados recentes, publicados no periódico Biological Conservation e apoiados pela FAPESP, trazem fortes evidências de que a cepa é, de fato, originária do Brasil, conforme noticiado pela ScienceDaily em 19 de janeiro de 2026. A pesquisa, liderada por cientistas da Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP), em São Paulo, sugere que o fungo já estava presente no Brasil por volta de 1916, décadas antes da introdução das rãs-touro, conforme estudo de 2014 na Molecular Ecology.

Essa nova perspectiva é crucial. Luisa P. Ribeiro, primeira autora do estudo e pesquisadora da UNICAMP, explica que “este genótipo é altamente prevalente em diferentes espécies nativas brasileiras, com registros muito antigos.”

Ela acrescenta: “Quando olhamos para outros lugares, os registros são muito mais recentes e ocorrem apenas em rãs-touro e outras espécies exóticas.” A cepa foi posteriormente detectada nos Estados Unidos, Japão e Península Coreana, demonstrando sua capacidade de disseminação global.

O rastro do fungo e o comércio global

Para reconstruir a distribuição histórica do fungo, colaboradores internacionais analisaram 2.280 espécimes de anfíbios coletados entre 1815 e 2014, preservados em museus zoológicos pelo mundo. Embora nem sempre fosse possível identificar a cepa exata, a presença ou ausência do fungo foi confirmada em 40 dos espécimes analisados.

Os casos mais antigos de infecção, fora do Brasil, foram encontrados em cinco rãs da espécie Alytes obstetricans, coletadas em 1915 na região dos Pireneus, na França.

A equipe de pesquisa combinou literatura científica existente, análise de espécimes de museus, genética de fungos de fazendas de rãs-touro brasileiras e dados do comércio internacional de rãs. Essa abordagem multifacetada solidificou a tese de que o Brasil foi a fonte da cepa Bd-Brazil e que o comércio global de carne de rã serviu como principal via para sua expansão.

Luís Felipe Toledo, professor da UNICAMP e orientador da pesquisa, ressalta a complexidade de rastrear o fungo, dada a conservação dos espécimes de museus.

A reavaliação da origem do fungo quitrídio Bd-Brazil e a clara conexão com o comércio de carne de rã sublinham a importância de uma vigilância sanitária robusta no comércio de vida selvagem. A capacidade de um patógeno, mesmo que centenário, de usar rotas comerciais para se espalhar globalmente representa uma ameaça contínua à biodiversidade.

É imperativo que as cadeias de suprimentos sejam mais transparentes e controladas para evitar futuras pandemias silenciosas entre as espécies, especialmente aquelas que já enfrentam múltiplos desafios ambientais.