A recente operação dos Estados Unidos na Venezuela, que culminou na captura do presidente Nicolás Maduro e na apreensão de um petroleiro russo, provocou indignação entre nacionalistas em Moscou. No entanto, o presidente Vladimir Putin tem mantido um notável silêncio, sem emitir uma declaração oficial, levantando questões sobre a postura russa em um cenário de escalada regional. Esse silêncio de Putin na Venezuela contrasta com a retórica mais agressiva de setores da mídia russa e de ex-oficiais.

A inação aparente de Putin, conforme observado por Nina L. Khrushcheva no Project Syndicate, sugere uma complexa teia de cálculos geopolíticos. Embora o presidente russo não aprecie parecer fraco, ele também busca evitar uma escalada desnecessária de tensões com os EUA. Contudo, a disposição de Moscou em ser “empurrada” tem limites, e a administração Trump pode estar testando esses limites.

Historicamente, a Rússia tem sido um pilar de apoio ao regime de Maduro, fornecendo auxílio econômico e militar para contornar as sanções impostas pelos Estados Unidos. Em dezembro de 2025, o ministro das Relações Exteriores da Rússia, Sergey Lavrov, reiterou a firme solidariedade de Moscou com o povo venezuelano e com Nicolás Maduro, prometendo “todo o respaldo” às iniciativas da Venezuela no Conselho de Segurança da ONU diante das hostilidades. Essa relação, consolidada desde a era Hugo Chávez, é vista como um contraponto à influência norte-americana na América Latina.

A complexa teia de interesses russos na Venezuela

Os laços entre Rússia e Venezuela vão além da mera solidariedade política; eles são profundamente enraizados em interesses estratégicos. A Venezuela representa um aliado geopolítico crucial para a Rússia na América Latina, uma região tradicionalmente vista como esfera de influência dos EUA. Moscou busca reemergir como potência global, e o fortalecimento de relações com países como a Venezuela contribui para essa visão de um mundo multipolar.

No âmbito econômico, a Rússia tem investido bilhões de dólares na Venezuela, especialmente nos setores de petróleo e defesa. Em maio de 2025, Maduro e Putin assinaram uma série de acordos para desenvolver uma “aliança estratégica” em diversas áreas, incluindo militar, econômica e energética. Empresas russas, como a Rosneft, foram parceiras essenciais no comércio de petróleo venezuelano, ajudando Caracas a mitigar o impacto das sanções. A cooperação militar também se intensificou, com visitas de navios e aviões militares russos à Venezuela em demonstração de apoio.

Entre a retórica e a cautela: a razão por trás da inação aparente

Apesar do histórico de apoio e dos interesses estratégicos, o silêncio de Putin na Venezuela após a captura de Maduro é um indicativo de uma estratégia mais calculada. Analistas apontam que o envolvimento da Rússia na guerra na Ucrânia limita sua capacidade de resposta direta a eventos em regiões distantes. Neil Melvin, especialista do Royal United Services Institute (RUSI), afirmou à Revista Planeta que o apoio russo à Venezuela tem sido “mais simbólico do que prático”, e que Moscou não está em condições de uma intervenção militar direta.

A resposta oficial russa à operação na Venezuela, embora não vinda diretamente de Putin, tem sido de condenação diplomática. O Ministério das Relações Exteriores russo expressou preocupação, pediu a libertação de Maduro e instou ao diálogo entre EUA e Venezuela. Em 10 de janeiro de 2026, embaixadores russos em Caracas reiteraram o repúdio do Kremlin ao uso unilateral da força pelos Estados Unidos, reafirmando a necessidade de preservar o direito internacional e os princípios da Carta das Nações Unidas. Essa abordagem reflete uma prioridade em evitar confrontos diretos com os EUA, ao mesmo tempo em que mantém a postura de defesa da soberania nacional.

O silêncio de Putin, portanto, não significa desinteresse, mas sim uma calibração cuidadosa de riscos e benefícios. Em um cenário global complexo, a Rússia busca equilibrar sua aspiração de grande potência com a necessidade de gerenciar tensões existentes. A questão agora é se essa cautela se manterá ou se a continuidade de ações americanas poderá, eventualmente, forçar Moscou a redefinir seus limites de tolerância e a natureza de sua resposta.