A Consumer Electronics Show (CES) 2026, realizada em Las Vegas, demonstrou um otimismo notável por parte das empresas chinesas de tecnologia, com a inteligência artificial (IA) e a robótica no centro das atenções. A presença chinesa na feira foi expressiva, com quase um quarto dos expositores e um domínio perceptível em áreas como hardware de IA e robótica, conforme noticiado pela MIT Technology Review.

Essa forte participação reflete uma mudança estratégica, onde as empresas chinesas não apenas exibem conceitos futuristas, mas focam na comercialização e aplicação prática de suas inovações. A IA, descrita como a “espinha dorsal” da inovação global, permeou todos os setores apresentados na CES 2026, de acordo com Grace Venes-Escaffi, especialista em comunicação da CTA, organizadora do evento.

O evento deste ano, que atraiu mais de 148 mil participantes e 4.100 expositores, marcou um retorno significativo da presença chinesa pós-pandemia, superando desafios como a negação de vistos em anos anteriores. A IA se tornou a justificativa universal para a viagem, consolidando a CES como um palco crucial para a tecnologia chinesa no cenário global.

A Vantagem Estratégica da Manufatura e Eletrônicos de Consumo

A China tem capitalizado sua robusta capacidade de manufatura para ganhar uma vantagem competitiva única no desenvolvimento de eletrônicos de consumo impulsionados por IA. Ian Goh, investidor da 01.VC, destacou que muitas empresas ocidentais sentem que não conseguem competir efetivamente no segmento de hardware, um terreno onde a China se sobressai devido a um sistema industrial completo e economias de escala.

Isso se traduz em uma vasta gama de produtos, desde dispositivos educacionais e brinquedos de apoio emocional, como o robô panda Luka AI ou o chaveiro robótico Fuzozo, até soluções sofisticadas para casas inteligentes. Marcas chinesas como TCL e Hisense apresentaram avanços em tecnologias visuais e soluções de vida inteligente, enquanto a Lenovo lançou o Qira, um superagente de IA pessoal que se integra a diversos dispositivos.

O estereótipo de produtos “baratos e repetitivos” já não se aplica, com a tecnologia chinesa se mostrando elegante e sofisticada. Dois exemplos notáveis são as marcas chinesas que dominam o mercado de robôs de limpeza doméstica nos EUA e a origem de grande parte da tecnologia de jardinagem suburbana, apesar de esse estilo de vida ser menos comum na China.

A Era da IA Física e o Domínio da Robótica Chinesa

A CES 2026 solidificou a “IA Física” como a próxima grande fronteira tecnológica, onde a inteligência artificial transcende as interfaces digitais para interagir com o mundo real. Jensen Huang, CEO da NVIDIA, popularizou o termo, descrevendo a IA que anda, pega e trabalha em fábricas. Nesse cenário, a China emerge como líder, especialmente no campo da robótica humanoide.

Quase 60% das 34 empresas que expuseram robôs humanoides na CES eram chinesas. Empresas como a Unitree, com seus robôs dançarinos e lutadores de boxe que demonstram estabilidade e equilíbrio, e a AgiBot, que liderou o mercado global de robôs humanoides em 2025 com mais de 5.000 unidades comercializadas, são exemplos claros dessa vanguarda. A Zeroth Robotics surpreendeu com o modelo M1, um robô humanoide de companhia com IA do Google, com pré-venda a partir de US$ 2.899.

Embora alguns desses robôs ainda sejam otimizados para tarefas específicas de demonstração, o foco está na coleta de dados do mundo físico para treinar modelos de linguagem e visão, impulsionando a evolução da IA. A presença massiva de empresas de robótica chinesas, que buscam clientes internacionais e canais de distribuição, demonstra uma clara estratégia de internacionalização e comercialização.

O otimismo das empresas chinesas na CES 2026 não é infundado. Ele se baseia em uma combinação poderosa de capacidade de manufatura inigualável, um forte investimento em P&D em IA e robótica, e uma estratégia agressiva para transformar inovações em produtos comercializáveis globalmente. Enquanto o mercado global observa, a China segue consolidando sua posição como um dos principais motores da inovação tecnológica mundial, redefinindo o futuro da tecnologia de consumo e da IA física.