A Venezuela emerge como um cenário complexo e desafiador para as gigantes do petróleo global, que buscam estabilidade em um mercado volátil. A instabilidade política e as flutuações nas sanções internacionais transformam cada investimento em um cálculo de risco elevado para as empresas de grande porte. O país, detentor das maiores reservas comprovadas de petróleo, representa tanto uma tentação quanto um grande obstáculo para a produção e o lucro das big oil, conforme reportado por veículos como The Economist.
Este cenário ganhou contornos ainda mais dramáticos no início de 2026, com a notícia da captura de Nicolás Maduro pelas forças dos EUA e a subsequente declaração de Donald Trump sobre a intenção de empresas americanas reconstruírem o setor petrolífero venezuelano. A situação, que já era uma “dor de cabeça” crônica, agora se aprofunda com a perspectiva de um retorno, mas em meio a uma infraestrutura seriamente deteriorada e um ambiente político ainda incerto. A produção, que já foi de mais de 3 milhões de barris por dia (bpd) nas décadas de 1970 e 2000, hoje se estabiliza em torno de 1,1 milhão de bpd.
Os anos de má gestão, o subinvestimento e as sanções dos EUA, intensificadas a partir de 2017, restringiram severamente a capacidade do país de exportar petróleo livremente, acessar financiamento internacional e importar equipamentos essenciais. Essa trajetória de declínio culminou em perdas estimadas em US$ 226 bilhões em receitas petrolíferas entre 2017 e 2024, um valor superior ao próprio PIB venezuelano, segundo o Instituto Tricontinental.
Reconstruindo a indústria: o desafio bilionário
Apesar do interesse manifestado por Washington em reativar o setor, o caminho para as grandes petroleiras é árduo e custoso. Especialistas indicam que a Venezuela possui as maiores reservas provadas de petróleo do mundo, com 303 bilhões de barris, segundo a OPEP. No entanto, a infraestrutura da estatal PDVSA está em frangalhos, exigindo investimentos bilionários. A consultoria Rystad Energy estima que seriam necessários US$ 53 bilhões ao longo de 15 anos apenas para manter a produção atual em 1,1 milhão de bpd.
Para um retorno ao patamar de 3 milhões de bpd, o investimento total poderia ultrapassar US$ 180 bilhões até 2040. A Wood Mackenzie aponta que as joint ventures na Faixa do Orinoco, por exemplo, precisariam de US$ 15 bilhões a US$ 20 bilhões em uma década para adicionar cerca de 500 mil bpd à produção. Além disso, a predominância de petróleo pesado no país exige refinarias com capacidade de processamento específica, como as encontradas na Costa do Golfo dos EUA.
Geopolítica do petróleo e a disputa por Essequibo
A incerteza política continua sendo um fator crucial. Embora o mercado de petróleo tenha reagido com moderação à captura de Maduro, com alta limitada dos preços do barril, as ações de petroleiras americanas registraram ganhos, refletindo a expectativa de novas oportunidades. Contudo, a falta de previsibilidade legal e fiscal é um entrave significativo para investimentos de longo prazo.
A disputa territorial com a Guiana pela região de Essequibo adiciona uma camada extra de risco geopolítico. A área, rica em recursos naturais e com descobertas de petróleo offshore lideradas pela ExxonMobil desde 2015, tem sido objeto de tensão constante. Embora um encontro recente entre os presidentes Nicolás Maduro e Irfaan Ali tenha amenizado as tensões, as reivindicações sobre as reservas petrolíferas permanecem, com Caracas classificando os contratos de exploração da Guiana como ilegais.
O cenário para o petróleo na Venezuela é de uma complexa equação entre vasto potencial de reservas e desafios estruturais e políticos monumentais. A expectativa de um novo capítulo com a intervenção dos EUA abre portas para o capital estrangeiro, mas a reconstrução exigirá não apenas bilhões de dólares, mas também um ambiente de segurança e estabilidade jurídica que ainda está por ser solidificado. O futuro da Venezuela como um player relevante no mercado global de petróleo dependerá da capacidade de superar décadas de abandono e incerteza.








