Milhões de africanos são empurrados para a pobreza anualmente por custos inesperados com saúde. Uma doença grave ou cirurgia podem desestabilizar famílias, revelando a profunda lacuna de financiamento nos sistemas de saúde do continente. No entanto, uma solução promissora, as remessas da diáspora, permanece amplamente inexplorada para combater essa crise na saúde na África.
Apesar do crescimento constante das remessas enviadas pela diáspora africana, seu potencial transformador ainda não é plenamente aproveitado. Esses fundos, muitas vezes destinados ao consumo imediato, poderiam ser direcionados para impulsionar mudanças sistêmicas, especialmente na área da saúde, onde a necessidade é mais premente.
A questão central, conforme apontado por especialistas no Project Syndicate, reside em como transformar essa torrente de capital privado em um modelo social eficaz. A ideia de agrupar esses recursos para fortalecer o financiamento da saúde emerge como uma estratégia inovadora, capaz de mitigar a dependência de pagamentos diretos que sufocam tantas famílias.
O impacto das despesas diretas na saúde
A realidade em muitos países africanos é que a ausência de cobertura universal de saúde significa que a carga financeira recai diretamente sobre os indivíduos. O Banco Mundial e a ONU alertam que cerca de 11 milhões de africanos caem na pobreza anualmente devido a despesas elevadas com saúde, pagas com recursos próprios.
Essa conjuntura leva a escolhas devastadoras: famílias buscam tratamento e se endividam, ou evitam cuidados essenciais, com consequências trágicas para a saúde pública. Os pagamentos diretos per capita com serviços de saúde saltaram de US$ 15 em 1995 para US$ 38 em 2014, enquanto os gastos públicos com saúde diminuíram pela metade.
Essa lacuna de investimento reflete-se na escassez de profissionais e produtos farmacêuticos, perpetuando ciclos de vulnerabilidade que afetam gerações e minam o progresso econômico e social do continente. A Organização Mundial da Saúde (OMS) destaca a urgência de uma reestruturação do financiamento para garantir acesso e qualidade.
Remessas: um capital subaproveitado para a saúde
As remessas anuais enviadas por africanos no exterior representam um fluxo de dinheiro significativo, superando, em muitos casos, a ajuda externa oficial. No entanto, a maior parte desses valores é pulverizada em gastos cotidianos, perdendo a oportunidade de criar um impacto estrutural e duradouro.
Especialistas em migrações e desenvolvimento, como os abordados em publicações da Organização Internacional para as Migrações (OIM), destacam que as remessas são um dos fluxos de financiamento externo mais previsíveis para países em desenvolvimento. Essa estabilidade oferece uma base sólida para modelos inovadores de financiamento da saúde.
A diversificação das fontes de financiamento é crucial para os estados africanos, e a canalização estratégica das remessas pode ser um pilar dessa estratégia. Iniciativas que transformam remessas em investimentos coletivos, como fundos comunitários de saúde ou seguros subsidiados, poderiam ser replicadas, conforme análises publicadas por veículos como o Le Monde Diplomatique Brasil. Isso construiria uma infraestrutura de saúde mais resiliente e equitativa.
A superação das lacunas de saúde na África exige mais do que assistência emergencial; requer uma reimaginação de como os recursos existentes podem ser mobilizados de forma estratégica. Ao reconhecer o poder das remessas da diáspora como um motor para o financiamento da saúde, o continente pode dar um passo decisivo em direção a um futuro onde a doença não seja mais uma sentença de pobreza, apoiado também por parcerias com o Banco Mundial e a OMS África.












