Um debate de anos sobre a segurança do Tamiflu em crianças e sua suposta ligação com eventos neuropsiquiátricos, como convulsões, pode finalmente ter um desfecho. Uma nova pesquisa do Monroe Carell Jr. Children’s Hospital da Vanderbilt University, cujos resultados foram divulgados em 5 de janeiro de 2026 pelo portal ScienceDaily, indica que a influenza é a verdadeira causa desses problemas, e o medicamento oseltamivir pode, na verdade, oferecer proteção. Este achado surpreendente reverte uma preocupação de longa data entre pais e profissionais de saúde.

Durante muitos anos, médicos e famílias questionaram se um antiviral comumente prescrito para a gripe infantil era o responsável por sintomas neuropsiquiátricos sérios, ou se esses efeitos eram, na verdade, causados pela própria infecção. Relatos de convulsões, confusão e alucinações alimentaram a incerteza, levando a uma cautela no uso do oseltamivir, conhecido comercialmente como Tamiflu.

A relevância dessas novas descobertas é imensa, especialmente considerando a severidade das complicações neurológicas associadas à influenza, como as observadas na temporada de gripe de 2024-2025. É fundamental que pacientes e famílias compreendam o verdadeiro perfil de risco-benefício dos tratamentos recomendados pela American Academy of Pediatrics.

O oseltamivir como fator protetor, não causador

A pesquisa, detalhada na revista JAMA Neurology, analisou registros de saúde de 692.295 crianças e adolescentes (de 5 a 17 anos) no Tennessee Medicaid entre julho de 2016 e junho de 2020. Os resultados são claros: crianças que receberam oseltamivir durante a gripe tiveram menor probabilidade de experimentar eventos neuropsiquiátricos graves, incluindo convulsões, estado mental alterado e alucinações. O principal investigador, James Antoon, MD, PhD, MPH, professor assistente de Pediatria em Monroe Carell Jr. Children’s Hospital da Vanderbilt University, afirmou: ‘Nossas descobertas demonstraram o que muitos pediatras há muito suspeitavam, que a gripe, e não o tratamento da gripe, está associada a eventos neuropsiquiátricos. Na verdade, o tratamento com oseltamivir parece prevenir eventos neuropsiquiátricos, em vez de causá-los.’

O estudo identificou três pontos cruciais que apontam a influenza como a principal responsável por essas complicações. Primeiramente, a própria infecção por influenza esteve ligada a uma taxa mais alta de eventos neuropsiquiátricos em comparação com crianças sem gripe, independentemente do uso de oseltamivir. Em segundo lugar, entre as crianças com influenza, aquelas tratadas com oseltamivir apresentaram uma redução de aproximadamente 50% nos eventos neuropsiquiátricos. Por fim, crianças sem influenza que receberam oseltamivir como medida preventiva mostraram a mesma taxa de eventos que crianças sem exposição à gripe. ‘Em conjunto, esses três achados não apoiam a teoria de que o oseltamivir aumenta o risco de eventos neuropsiquiátricos’, disse Antoon. ‘É a influenza.’

Implicações para a segurança do tratamento da gripe infantil

A análise em larga escala considerou 1.230 eventos neuropsiquiátricos graves, incluindo 898 neurológicos (como convulsões, encefalite, tontura) e 332 psiquiátricos (como transtornos de humor e alucinações). Carlos Grijalva, MD, MPH, professor de Política de Saúde e Informática Biomédica na Vanderbilt University Medical Center e autor sênior do estudo, enfatizou que o tratamento precoce continua sendo crucial. ‘Esses tratamentos para a gripe são seguros e eficazes, especialmente quando usados no início do curso da doença clínica’, afirmou Grijalva.

A pesquisa, financiada pelos National Institutes of Health, espera dissipar as preocupações sobre a segurança do oseltamivir e reforçar seu papel na redução das complicações relacionadas à gripe em crianças. Este novo entendimento sobre o Tamiflu e convulsões em crianças oferece uma base sólida para que cuidadores e profissionais de saúde se sintam mais seguros ao prescrever e administrar o medicamento, focando na prevenção das sérias consequências da própria infecção viral.

A reversão da percepção sobre o Tamiflu representa um avanço significativo na medicina pediátrica, confirmando que a influenza é a verdadeira vilã por trás dos eventos neuropsiquiátricos em crianças. Com esta evidência, a comunidade médica pode agora reafirmar a importância do tratamento precoce com oseltamivir, não apenas para aliviar os sintomas da gripe, mas também para proteger as crianças de complicações neurológicas graves. O foco se desloca para a vigilância da própria infecção e a promoção de intervenções terapêuticas eficazes, garantindo a segurança e o bem-estar dos pequenos pacientes.