Há dez anos, a China revogava sua política do filho único, mas as cicatrizes de uma governança brutal e baseada em dados questionáveis ainda moldam seu futuro demográfico e social. A medida, implementada por 35 anos, deixou um legado complexo que agora, uma década depois, começa a ser plenamente compreendido, conforme destaca uma análise recente do Project Syndicate.
A lógica por trás das políticas de planejamento familiar chinesas sempre foi suspeita, assim como os dados que convenceram as autoridades a mantê-las. Este cenário ressalta uma falha crítica na governança chinesa, pela qual o país paga um preço elevado. A persistência da política, mesmo diante de evidências de suas falhas, expõe uma rigidez preocupante na tomada de decisões.
A ex-chefe da aplicação das regras de planejamento familiar, Peng Peiyun, falecida recentemente aos 96 anos, nunca foi responsabilizada por suas ações. Embora elogiada por ser “reformista”, ela perpetuou uma política desumana. Suas consequências apenas começaram a se materializar, como aponta o economista Yi Fuxian, da Universidade de Wisconsin-Madison, em artigo para o Project Syndicate.
O legado demográfico e social de uma década
A política do filho único, em vigor de 1979 a 2015, visava controlar o crescimento populacional. Contudo, gerou um rápido envelhecimento da população e acentuado desequilíbrio de gênero. Estima-se que milhões de nascimentos foram evitados, e a população chinesa diminuiu pela primeira vez em mais de seis décadas em 2022.
O dividendo demográfico atingiu um ponto de virada em 2015, com um cenário de escassez de mão de obra e crescente população de idosos. Este cenário pressiona os sistemas de previdência e saúde, impactando a capacidade produtiva. A preferência cultural por filhos homens, aliada à política, resultou em grave desequilíbrio de gênero, com 34,9 milhões a mais de homens que mulheres em 2020.
Desafios contemporâneos e futuro demográfico
Essa disparidade criou uma “geração de homens solteiros”, com implicações sociais profundas. Para reverter a queda na natalidade, o governo chinês implementou políticas do segundo e, em 2021, do terceiro filho.
Além disso, foram introduzidos incentivos financeiros, como auxílios anuais por criança, deduções fiscais e apoio à habitação. No entanto, esses esforços enfrentam obstáculos significativos.
Os altos custos de vida e de criação de filhos na China, que está entre os mais caros do mundo, desencorajam as famílias a ter mais crianças. A taxa de casamentos atingiu o menor patamar histórico, com jovens relutantes em ter filhos devido a questões financeiras e de carreira.
A remoção de isenções fiscais para contraceptivos também é uma nova medida para estimular a natalidade.
A China se encontra em uma corrida contra o tempo para mitigar os efeitos de décadas de controle populacional rigoroso. As falhas de governança que perpetuaram a política do filho único agora exigem uma abordagem flexível e abrangente.
O sucesso das novas políticas dependerá não apenas dos incentivos, mas de uma mudança cultural e econômica profunda. É crucial tornar a parentalidade mais acessível e desejável para as novas gerações, garantindo a sustentabilidade do país no longo prazo.












