Uma nova e sofisticada análise de DNA reescreveu a história da enigmática Mulher de Beachy Head, um esqueleto da era romana que intrigou arqueólogos por mais de uma década. Contrariando teorias anteriores de que ela teria raízes na África subsaariana ou no Mediterrâneo, a pesquisa recente aponta para uma origem local, na Grã-Bretanha romana.
A descoberta, detalhada em um estudo recente, lança uma nova luz sobre a composição demográfica da Grã-Bretanha durante a ocupação romana. Ela desafia as narrativas iniciais que sugeriam uma presença africana precoce, amplamente divulgada em museus e na mídia.
Essas novas informações são fruto do avanço das tecnologias de sequenciamento de DNA antigo, permitindo aos cientistas uma precisão sem precedentes na determinação de sua ancestralidade. A ciência, em sua constante evolução, corrige e aprofunda nossa compreensão do passado.
Desvendando uma década de mistério genético
Os restos da Mulher de Beachy Head foram redescobertos em 2012, em uma caixa no porão da Prefeitura de Eastbourne. Uma etiqueta rudimentar indicava que o esqueleto, datado entre 129 e 311 d.C., havia sido encontrado próximo ao desfiladeiro de Beachy Head.
Análises esqueléticas iniciais, focadas em medições morfológicas, levaram à hipótese de uma possível origem subsaariana africana. Essa teoria ganhou considerável atenção pública, sendo inclusive incorporada em exposições de museus e na mídia.
Posteriormente, uma pesquisa de DNA não publicada sugeriu uma origem mediterrânea, possivelmente de Chipre. Contudo, esses dados genéticos eram fragmentados e inconclusivos, deixando muitas perguntas sem resposta sobre sua verdadeira identidade.
As novas revelações da ciência do DNA antigo
Cientistas do Natural History Museum de Londres, em colaboração com a University College London, reexaminaram o esqueleto utilizando técnicas avançadas de sequenciamento de DNA. Eles conseguiram extrair uma quantidade muito maior de DNA de alta qualidade.
Os resultados indicam que o DNA da Mulher de Beachy Head é mais similar ao de indivíduos da população rural do sul da Grã-Bretanha durante o período romano, bem como a populações modernas da Inglaterra. Não foram encontradas evidências de ancestralidade africana ou mediterrânea recente.
O Dr. William Marsh, um dos cientistas envolvidos na análise do DNA, afirmou que as novas técnicas permitiram determinar a ancestralidade com muito mais precisão. “Mostramos que ela possui uma ancestralidade genética mais similar a outros indivíduos da população local da Grã-Bretanha da era romana”, disse.
A Dra. Selina Brace, especialista em DNA antigo e autora sênior do estudo, destacou que a reinterpretação reflete o processo natural do avanço científico. “Nosso conhecimento científico está em constante evolução, e é nosso trabalho buscar respostas”, explicou.
Análises de isótopos de dentes e ossos complementaram os achados genéticos, sugerindo que seus primeiros anos foram passados na costa sul da Grã-Bretanha. Seus padrões de mobilidade eram semelhantes aos de outros indivíduos locais do mesmo período.
O estudo completo foi publicado no Journal of Archaeological Science, conforme divulgado pelo ScienceDaily.com.
A história da Mulher de Beachy Head é um testemunho da capacidade da ciência de refinar nossa compreensão do passado. Ela nos lembra que, mesmo com evidências iniciais convincentes, a evolução das ferramentas e métodos pode revelar verdades mais profundas e matizadas.
Esta nova perspectiva sobre sua identidade não apenas corrige um registro arqueológico importante, mas também enriquece nosso entendimento das populações locais que viveram na Grã-Bretanha durante a era romana, destacando a complexidade da história humana e a importância da pesquisa contínua.









