Uma análise global de crânios de cães antigos está reescrevendo a cronologia da diversidade canina, revelando que as diferenças de tamanho e forma entre os cães começaram a surgir muito antes do que se imaginava, há mais de 11.000 anos. Esta descoberta, publicada em 7 de janeiro de 2026, desafia a ideia de que a vasta gama de raças que conhecemos hoje é predominantemente um produto de práticas de criação seletiva recentes. Em vez disso, aponta para um longo processo de coevolução entre humanos e seus primeiros companheiros caninos.
Por décadas, a comunidade científica atribuiu a maior parte da diversidade morfológica dos cães à criação seletiva intensiva, especialmente aquela que floresceu com os clubes de canil vitorianos. No entanto, este novo trabalho demonstra que os cães já exibiam variações físicas substanciais milhares de anos atrás, logo após sua separação dos lobos. Isso sugere uma adaptação rápida dos primeiros cães, impulsionada por uma relação crescente e intrínseca com as comunidades humanas da época.
Este estudo monumental, liderado por pesquisadores da Universidade de Exeter e do CNRS francês e publicado na revista Science, representa a análise mais abrangente já realizada sobre crânios de canídeos. Iniciado em 2014, o projeto examinou 643 crânios, incluindo exemplares modernos, cães de rua e lobos, cobrindo um período de aproximadamente 50.000 anos, desde o Pleistoceno até o presente. Cientistas de mais de 40 instituições colaboraram para criar modelos 3D detalhados de cada crânio, utilizando morfometria geométrica para comparações precisas de tamanho e forma.
A profunda história da diversidade canina
A pesquisa revelou que, nos períodos Mesolítico e Neolítico, os cães já exibiam uma ampla gama de formas cranianas e tamanhos corporais. Essa crescente diversidade provavelmente refletia os muitos papéis que os cães desempenhavam nas primeiras sociedades humanas, como caça, pastoreio, guarda e companhia. A Dra. Carly Ameen, coautora principal do Departamento de Arqueologia e História de Exeter, enfatiza que a diversidade entre os cães não é apenas um produto de criadores vitorianos, mas sim um legado de milhares de anos de coevolução com as sociedades humanas.
O cão doméstico mais antigo confirmado no estudo foi encontrado no sítio mesolítico russo de Veretye, datado de aproximadamente 11.000 anos atrás. A análise também identificou cães domésticos primitivos na América, há cerca de 8.500 anos, e na Ásia, há aproximadamente 7.500 anos, com base nas formas cranianas associadas à domesticação. Após essas primeiras aparições, a variação entre os cães aumentou rapidamente, indicando uma evolução dinâmica em resposta às interações humanas.
Cronologia da evolução e os desafios da identificação
A Dra. Allowen Evin, coautora principal do CNRS no Institut of Evolutionary Science-Montpellier, França, detalhou a cronologia dessas mudanças. Uma redução no tamanho do crânio dos cães foi detectada pela primeira vez entre 9.700 e 8.700 anos atrás, enquanto um aumento na variância de tamanho surgiu a partir de 7.700 anos atrás. A maior variabilidade na forma do crânio começou a emergir por volta de 8.200 anos atrás. Embora os cães modernos exibam morfologias mais extremas, como buldogues de face curta e borzois de face longa, que estão ausentes nos primeiros espécimes arqueológicos, a diversidade já era significativa no Neolítico, atingindo metade da gama observada nos cães atuais.
Apesar desses avanços, a pesquisa também ressalta a dificuldade em identificar os estágios mais iniciais da domesticação canina. Nenhum dos espécimes do Pleistoceno Superior examinados, incluindo alguns anteriormente sugeridos como “proto-cães”, mostrou características cranianas consistentes com a domesticação. Isso sugere que o começo real do processo de domesticação permanece, em grande parte, oculto no registro arqueológico, como aponta o Professor Greger Larson, autor sênior do estudo da Universidade de Oxford.
Este estudo redefine nossa compreensão das origens da diversidade canina, mostrando que a complexa relação entre humanos e cães moldou a evolução desses animais de maneiras profundas e antigas. A contínua busca por evidências dos primeiros momentos da domesticação promete desvendar ainda mais segredos sobre essa parceria milenar, enriquecendo a narrativa de como os cães se tornaram os companheiros variados e essenciais que são hoje.












