O ano de 2026 exige uma recalibragem profunda nas perspectivas econômicas e de mercado, com a narrativa dominante da inteligência artificial em 2025 dando lugar a incertezas estruturais mais complexas. Governos, bancos centrais e investidores precisarão se adaptar a um cenário onde geopolítica, segurança nacional e manobras políticas domésticas moldam cada vez mais a atividade econômica global, segundo a análise de Mohamed A. El-Erian para o Project Syndicate.
Em 2025, os mercados globais foram definidos tanto pelo que não aconteceu quanto pelo que se concretizou. A euforia em torno da inteligência artificial (IA) gerou apostas massivas e concentradas, mascarando questões fundamentais não resolvidas. Contudo, à medida que avançamos em 2026, essa narrativa otimista da IA provavelmente não será suficiente para ofuscar as incertezas persistentes, muitas delas reflexo de mudanças estruturais mais profundas.
Essa transição marca um ponto crucial para a economia global, com projeções indicando um abrandamento do crescimento. A Organização das Nações Unidas (ONU) prevê uma diminuição marginal para 2,7% em 2026, após 2,8% em 2025, enquanto a OCDE estima 2,9% para o próximo ano. Fatores tradicionais que impulsionavam a atividade econômica serão progressivamente substituídos por preocupações de segurança nacional, complexidades geopolíticas e a dinâmica política interna de cada país.
O declínio da narrativa da IA e a ascensão de novos vetores
A euforia em torno da inteligência artificial, que dominou as discussões e investimentos em 2025, enfrenta agora um escrutínio mais rigoroso. Embora a tecnologia continue a ser um motor de inovação, com a IDC projetando um crescimento de 12,5% no mercado de TI corporativo na América Latina em 2026, sua capacidade de mascarar outras fragilidades sistêmicas diminui. O foco se desloca para elementos que historicamente foram secundários, mas que agora ganham proeminência decisiva.
Preocupações com segurança nacional, por exemplo, influenciam decisões de investimento e políticas comerciais de maneiras antes impensáveis. A globalização, antes vista como um caminho unidirecional, é agora reavaliada através das lentes da resiliência da cadeia de suprimentos e da soberania tecnológica. Essa recalibragem nas estratégias de negócios e na formulação de políticas públicas é essencial, especialmente diante dos riscos de fragmentação comercial e incertezas macroeconômicas, conforme apontado pela ONU.
A geopolítica, com seus conflitos regionais e a reconfiguração de alianças, exerce um impacto direto sobre os preços das commodities, fluxos de capital e, consequentemente, sobre a inflação e o crescimento. A Amundi descreve 2026 como “um ano de transição”, onde a economia global se ajusta a um regime de “desordem controlada”, caracterizado por inflação persistente e tensões geopolíticas crônicas.
Implicações para investidores, bancos centrais e governos
A exigência de recalibragem em 2026 não se limita a um setor específico, mas permeia todas as esferas da economia global. Para os investidores, isso significa ir além das apostas concentradas em uma única tese de crescimento, como a IA, e diversificar riscos com base em uma análise mais ampla de fatores macro e geopolíticos. A volatilidade pode se tornar a norma, e a capacidade de adaptação será crucial. Relatórios da UBS e Allianz Trade também apontam para a necessidade de posicionamento estratégico em megatendências estruturais, como digitalização e descarbonização, além de considerar os riscos de endividamento público.
Bancos centrais enfrentam o desafio de navegar em um ambiente onde as ferramentas monetárias tradicionais podem ser menos eficazes contra choques de oferta impulsionados por fatores geopolíticos. O Fundo Monetário Internacional (FMI) alerta para a importância da cooperação multilateral para evitar a fragmentação e sustentar o crescimento, enquanto as políticas devem focar em controlar riscos de curto prazo e reconstruir reservas. A divergência monetária também marcará um ponto de inflexão, com diferentes ritmos de flexibilização entre regiões.
Os governos, por sua vez, são compelidos a reconsiderar suas prioridades. A segurança econômica e a resiliência nacional ganham destaque, influenciando decisões sobre investimentos em infraestrutura, subsídios a indústrias estratégicas e acordos comerciais. A recalibragem 2026, portanto, representa um convite à reflexão estratégica e à ação coordenada em escala global, onde a agilidade para mudar e transformar será um diferencial.
O ano de 2026 se desenha como um período de transição e redefinição, onde a complexidade do cenário global exige uma postura mais madura e multifacetada. A era de uma única narrativa dominante parece ter chegado ao fim, dando lugar a uma tapeçaria intrincada de desafios e oportunidades. Adaptar-se a essa nova realidade não é apenas uma questão de otimização, mas de sobrevivência em um mercado global cada vez mais interconectado e imprevisível. A capacidade de antecipar e responder a essas mudanças será o diferencial para a prosperidade futura.












