A população global está em trajetória para alcançar dez bilhões de pessoas até meados do século, um marco que intensifica o debate sobre como garantir segurança alimentar para todos. Atualmente, o planeta já produz comida suficiente para sua população, mas a fome ainda afeta milhões devido a um sistema alimentar ineficiente. A Organização das Nações Unidas (ONU) estima que a população mundial variará entre 9,3 e 10,6 bilhões até 2050, com a marca de dez bilhões sendo uma estimativa razoável. Este cenário projeta uma demanda por alimentos radicalmente maior, exigindo uma transformação profunda em como produzimos, distribuímos e consumimos recursos.

Apesar de o número de pessoas em situação de fome ter diminuído ligeiramente em 2024, para 673 milhões globalmente, ainda está acima dos níveis pré-pandemia, com um aumento preocupante na África e na Ásia Ocidental. Esse descompasso entre a produção e a fome revela que o problema não reside na escassez de alimentos em si, mas sim em falhas estruturais que permeiam toda a cadeia, desde o campo até a mesa do consumidor. A ineficiência, o desperdício e a distribuição desigual são barreiras persistentes que impedem o acesso universal a dietas nutritivas.

O desafio de alimentar dez bilhões de pessoas não é apenas quantitativo, mas fundamentalmente qualitativo e ambiental. A agricultura intensiva, embora vital para a produção em larga escala, tem gerado um ciclo vicioso de desmatamento, perda de biodiversidade, poluição do solo e da água, e contribuição para as mudanças climáticas. O custo de uma dieta saudável, por exemplo, permanece elevado, especialmente na América Latina e Caribe, tornando-a inacessível para 182,9 milhões de pessoas na região.

A complexidade da produção e o impacto ambiental

Um dos maiores entraves para a segurança alimentar global reside na perda e no desperdício de alimentos. Cerca de um terço de tudo o que é produzido – aproximadamente 1,3 bilhão de toneladas anualmente – é perdido ou descartado entre a fazenda e o consumidor final. Este desperdício massivo não só representa uma falha ética e econômica, mas também um grave problema ambiental, contribuindo com 8% a 10% das emissões globais de gases de efeito estufa. O metano liberado pela decomposição de alimentos em aterros tem um impacto ainda maior que o dióxido de carbono.

As mudanças climáticas, por sua vez, exercem uma pressão crescente sobre a produção agrícola. O aumento das temperaturas globais, secas mais intensas e eventos climáticos extremos, como inundações e tempestades, causam quebras de safra e diminuem a qualidade nutricional dos alimentos. Pesquisas indicam que culturas básicas como arroz e feijão precisam se tornar mais resistentes a essas condições adversas. Além disso, a expansão agrícola para atender à demanda por carne e laticínios consome cerca de 60% das terras agrícolas do mundo para a pecuária, um uso de terra que agrava o desmatamento e as emissões.

Inovação e consumo: caminhos para a sustentabilidade

Para alimentar dez bilhões de pessoas de forma sustentável, a comunidade global já possui o conhecimento e as ferramentas necessárias, mas precisa utilizá-los de forma inteligente e em escala. Uma das abordagens promissoras é a intensificação sustentável, que busca aumentar a produtividade agrícola enquanto minimiza os impactos ambientais. Isso envolve a integração de processos biológicos e ecológicos, como ciclos de nutrientes e regeneração do solo, com tecnologias avançadas.

A tecnologia tem um papel fundamental nessa transformação. A agricultura de precisão, a agricultura digital, o uso de drones, sensores inteligentes, inteligência artificial e biotecnologia estão revolucionando o campo. Essas inovações permitem o uso racional de insumos, otimizam processos e aumentam a resiliência das culturas. Além disso, a mudança nos padrões de consumo é crucial. A adoção de dietas mais baseadas em plantas e o consumo de proteínas alternativas, como leguminosas, algas e carne cultivada, podem reduzir significativamente a pressão sobre os recursos naturais. Reduzir o desperdício de alimentos em casa e em toda a cadeia de suprimentos é uma medida imediata e eficaz, que pode diminuir as emissões agrícolas e a subnutrição.

O futuro da alimentação dependerá de uma combinação estratégica de produção mais eficiente e sustentável, distribuição equitativa e redução drástica do desperdício. É imperativo que governos, empresas e indivíduos colaborem para reformular os sistemas alimentares, garantindo que o direito à alimentação seja uma realidade para todos, sem comprometer a saúde do planeta para as gerações futuras. As soluções existem e a urgência é palpável para que o mundo possa, de fato, alimentar dez bilhões de pessoas de forma digna e sustentável.