O renomado chef português José Avillez, detentor de estrelas Michelin, revelou ao Valor Econômico por que o Brasil não está em seus planos de expansão. Ele aponta os complexos desafios para negócios no Brasil, citando a dificuldade de operar em um ambiente que exige um esforço desproporcional para empreender. Sua visão ecoa a de muitos investidores que veem o país como um mercado de alto potencial, mas com barreiras significativas.

A declaração de Avillez, um dos nomes mais respeitados da gastronomia mundial, joga luz sobre uma discussão persistente no cenário econômico brasileiro: a viabilidade de empreender em um país com tamanho e potencial de consumo inegáveis, mas que consistentemente figura entre os mais complexos para o capital estrangeiro. A experiência do chef, que já expandiu seus negócios para outros mercados internacionais, serve como um termômetro para a percepção de risco e esforço exigidos no país.

Essa percepção não é isolada. Relatórios internacionais e estudos domésticos reiteram que, apesar do apelo de um vasto mercado consumidor, o Brasil impõe uma série de obstáculos que desencorajam o investimento e a criação de novas empresas. A complexidade regulatória e a instabilidade macroeconômica são fatores frequentemente citados por empresários e analistas.

A labiríntica burocracia e o custo Brasil

Um dos principais gargalos que dificultam a atração de novos empreendimentos e a expansão dos existentes é a densa teia burocrática e fiscal. O que se convencionou chamar de “Custo Brasil” engloba uma série de desvantagens estruturais e conjunturais que afetam a competitividade das empresas. Segundo um estudo da Confederação Nacional da Indústria (CNI), essa carga é estimada em trilhões de reais, impactando diretamente o Produto Interno Bruto (PIB) e a geração de empregos. Avillez, em sua fala, destacou a dificuldade com as leis trabalhistas e o sistema tributário como pontos de especial atenção.

O relatório Doing Business do Banco Mundial, em suas últimas edições, classificou o Brasil em posições desfavoráveis em indicadores como abertura de empresas, pagamento de impostos e execução de contratos. Em 2020, por exemplo, o país ocupava a 124ª posição entre 190 economias, refletindo o tempo e os recursos despendidos para cumprir as obrigações fiscais e regulatórias. Para um chef que precisa focar na excelência gastronômica, a distração com a gestão de complexidades administrativas representa um desvio significativo de energia e recursos, tornando os desafios para negócios no Brasil ainda mais salientes.

O impacto no investimento e as perspectivas de melhoria

A percepção de alta complexidade e o elevado Custo Brasil têm um efeito direto sobre o volume e a qualidade do investimento estrangeiro direto (IED). Embora o Brasil continue a ser um destino relevante para o IED na América Latina, a incerteza regulatória e a falta de previsibilidade jurídica podem afastar investidores de longo prazo que buscam estabilidade e retornos consistentes. Dados do Banco Central do Brasil mostram que, embora o fluxo de IED seja robusto, ele poderia ser ainda maior se o ambiente de negócios fosse mais propício.

Reformas estruturais, como a tributária e a administrativa, são vistas como cruciais para mitigar esses obstáculos. A simplificação de processos, a digitalização e a harmonização das leis poderiam reduzir significativamente o tempo e o custo de se fazer negócios no país. A expectativa é que, com um ambiente mais transparente e menos oneroso, o Brasil possa atrair não apenas grandes corporações, mas também empreendedores de menor porte e alto valor agregado, como José Avillez, que poderiam enriquecer a oferta de serviços e a geração de empregos qualificados. O sucesso dessas reformas determinará se o Brasil conseguirá, de fato, converter seu potencial em um ambiente acolhedor para o capital e a inovação.

Em suma, a visão de José Avillez sobre os desafios para negócios no Brasil serve como um alerta e um convite à reflexão. Para que o país possa desfrutar plenamente de seu potencial econômico, é imperativo que se empenhe em criar um ambiente mais amigável ao empreendedorismo. Somente assim, o Brasil poderá atrair e reter talentos e investimentos que impulsionem seu desenvolvimento de forma sustentável e inclusiva.