Os Estados Unidos registraram um aumento notável nos pedidos de falência corporativa e individual em 2023 e no início de 2024, levantando questões sobre o impacto duradouro das políticas econômicas da administração anterior. Este cenário desafiador, por vezes referido como o ‘custo Trump’, reflete uma confluência de fatores que moldaram a economia americana.
A percepção de que as decisões tomadas entre 2017 e 2021 continuam a reverberar na saúde financeira de empresas e famílias ganha força à medida que os dados mais recentes são divulgados. Enquanto a pandemia de COVID-19 inegavelmente distorceu muitas tendências, analistas buscam entender quais vulnerabilidades foram exacerbadas ou criadas no período, e como elas interagem com o atual ambiente de juros altos e inflação.
Este aumento nos processos de insolvência não é uniforme, atingindo setores específicos com maior intensidade e evidenciando uma pressão crescente sobre o capital de giro e a capacidade de endividamento. Compreender a origem e a magnitude dessa onda de falências é crucial para decifrar a trajetória econômica futura do país.
A escalada dos pedidos de falência e seus catalisadores
Os números recentes do sistema judicial americano pintam um quadro preocupante. Segundo dados do American Bankruptcy Institute (ABI), os pedidos de falência totalizaram 445.187 em 2023, um aumento de 16% em relação a 2022. Mais acentuado foi o salto nas falências comerciais, que subiram 18% no mesmo período, e especificamente os pedidos do Capítulo 11 (reorganização corporativa), que dispararam 72% para 6.569 casos. Essa aceleração continuou no primeiro trimestre de 2024, com um crescimento de 15% nas falências totais em comparação com o ano anterior, conforme o Departamento de Justiça dos EUA.
Diversos catalisadores contribuem para este cenário. A rápida elevação das taxas de juros pelo Federal Reserve, iniciada em 2022 para combater a inflação, tornou o crédito mais caro e o refinanciamento de dívidas mais oneroso para muitas empresas. Além disso, o fim de programas de apoio governamental implementados durante a pandemia, como o Programa de Proteção ao Salário (PPP), removeu uma importante rede de segurança para negócios vulneráveis. Pequenas e médias empresas, muitas delas já fragilizadas por choques na cadeia de suprimentos e pela volatilidade dos custos de insumos, sentem o peso dessas condições.
Políticas e repercussões: uma análise econômica
A conexão entre a administração Trump e o atual cenário de falências exige uma análise multifacetada. A Lei de Cortes de Impostos e Empregos de 2017, um dos pilares da política econômica de Trump, reduziu significativamente o imposto corporativo. Embora visasse estimular o investimento e o crescimento, críticos argumentam que a medida contribuiu para um aumento da dívida corporativa e beneficiou desproporcionalmente grandes empresas, sem criar uma base sólida de resiliência para os negócios menores. Um estudo do Congressional Budget Office (CBO) frequentemente aponta para o impacto fiscal dessas políticas.
As guerras comerciais, com a imposição de tarifas sobre produtos chineses e de outros parceiros, também introduziram incertezas e custos adicionais para importadores e setores dependentes de cadeias de suprimentos globais. “As tarifas, embora destinadas a proteger indústrias domésticas, frequentemente resultaram em custos mais altos para os consumidores e empresas americanas, apertando as margens de lucro e dificultando a competitividade”, observa Dra. Emily Chen, economista sênior do Peterson Institute for International Economics. Tais pressões, acumuladas ao longo de anos, podem ter enfraquecido a capacidade de algumas empresas de resistir a choques econômicos subsequentes, como a pandemia e o aumento dos juros.
O legado econômico de Trump, portanto, não pode ser simplificado a um único fator. Ele reside na interação complexa entre políticas fiscais, comerciais e regulatórias que, somadas à resposta a crises inesperadas, como a COVID-19, e a subsequentes ajustes monetários, criaram um terreno fértil para as atuais ondas de insolvência.
A crescente onda de pedidos de falência nos EUA sinaliza mais do que apenas um ajuste pós-pandêmico; ela reflete as consequências de um ciclo econômico complexo, influenciado por decisões políticas de longo alcance. O chamado ‘custo Trump’ é, na verdade, uma teia de fatores onde as sementes de políticas passadas germinam no ambiente econômico atual. A capacidade das empresas e dos formuladores de políticas de se adaptarem a este novo normal será determinante para a estabilidade econômica dos próximos anos, com o Federal Reserve e o Congresso observando atentamente os desdobramentos.












