Apesar de investimentos bilionários por gigantes como Alphabet e Microsoft, o mercado de inteligência artificial enfrenta um ceticismo crescente, com muitos projetos empresariais falhando em gerar retorno. Essa dinâmica perigosa exige que os principais hiperscalers de IA restaurem a confiança para garantir um futuro sustentável para a tecnologia.

Nos últimos anos, apenas cinco hiperscalers – Alphabet, Meta, Microsoft, Amazon e Oracle – destinaram centenas de bilhões de dólares em capital para a IA, com projeções de investimento anual superando os US$ 600 bilhões. Tal concentração de capital, que já representa cerca de 35% da capitalização total do mercado dos EUA, levanta preocupações sobre uma possível bolha, conforme apontado pelo Deutsche Bank, em artigo da Fast Company.

Essa dependência econômica em um pequeno grupo de visionários e investidores, conforme discutido por Daron Acemoglu e Simon Johnson em “Power and Progress”, ecoa falhas históricas quando o progresso não inclui a todos. A falta de feedback e a centralização excessiva podem levar a decisões de má qualidade e custos catastróficos, como visto no projeto do Canal do Panamá.

O crescente déficit de confiança e o retorno questionável

Apesar do entusiasmo e do volume de capital injetado, a realidade do mercado de IA generativa mostra um cenário desafiador. Um relatório recente do MIT revelou que, apesar de um investimento de US$ 30 bilhões a US$ 40 bilhões em GenAI por empresas, 95% das organizações não obtêm retorno algum. É um paradoxo que uma indústria atraia tanto capital com tão pouco a mostrar.

Essa situação é agravada por uma profunda desconfiança pública em relação à tecnologia. Uma pesquisa global da KPMG com 48 mil pessoas em 47 países indicou que 54% dos entrevistados são cautelosos em confiar na IA. A demanda por regulamentação é clara, com 70% dos participantes afirmando sua necessidade, embora apenas 43% acreditem que as leis atuais são adequadas.

O déficit de confiança representa uma barreira estrutural significativa para a adoção e o uso valioso de tecnologias emergentes. Ignorar as críticas e marginalizar aqueles que arcam com os custos da missão dos hiperscalers pode gerar consequências catastróficas, como advertido em um artigo da Fast Company.

Caminhos para a reconstrução da confiança na IA

Para reverter o cenário atual, é imperativo que os hiperscalers de IA mudem sua abordagem. Sistemas de IA confiáveis não podem ser criados apenas por marketing. A chave está em desenvolver sistemas adaptativos e incorporados que aprendam com o feedback contínuo dos usuários, conforme destacado pelo relatório do MIT.

Decisões altamente centralizadas na aquisição de ferramentas de IA muitas vezes resultam em produtos genéricos, inadequados ao ambiente empresarial e que geram resultados desconfiados pelos funcionários, especialmente em tarefas críticas. Isso leva a contornar as ferramentas ou a uma diminuição no seu uso, pois elas falham em aprender e se adaptar.

É fundamental criar mais oportunidades para que executivos recebam feedback direto e o incorporem significativamente no desenvolvimento e adaptação dos modelos de IA. A inclusão de diversas vozes – daqueles que constroem, implementam e trabalham com esses sistemas – é crucial para direcionar o progresso da tecnologia de forma mais equitativa e eficaz.

O futuro da inteligência artificial, e os vastos investimentos a ela associados, dependem criticamente da capacidade dos hiperscalers de reconstruir a confiança. Isso exige uma mudança cultural, afastando-se da visão otimista unilateral para uma abordagem mais inclusiva e responsiva. Somente ao priorizar a ética, a adaptabilidade e o feedback dos usuários, a IA poderá cumprir seu verdadeiro potencial e evitar o destino de projetos grandiosos que falharam por falta de visão compartilhada.