A Kraken, uma das principais exchanges de criptomoedas globais, projeta um ano de 2026 marcado por uma virada significativa no panorama dos ativos digitais. A expectativa é de que o mercado se afaste da euforia especulativa, priorizando uma estrutura mais robusta, impulsionada por forças macroeconômicas que redefinem o tradicional ciclo do Bitcoin. Esta análise aponta para uma era de maior maturidade e integração com as finanças tradicionais.
Segundo Thomas Perfumo, economista global da Kraken, em um relatório publicado no blog da própria exchange, o mercado de criptoativos em 2026 se apresenta menos eufórico e estruturalmente mais complexo, com o Bitcoin consolidando-se como um ativo macro, sensível a fatores econômicos globais. A influência de variáveis como crescimento econômico misto, inflação persistente e catalisadores geopolíticos voláteis será determinante, alterando os canais de demanda, liquidez e risco.
O cenário atual indica uma clara transição, onde a volatilidade, embora presente, tende a ser mais contida em comparação com ciclos anteriores, com movimentos pontuais impulsionados por narrativas específicas. Essa mudança reflete não apenas uma evolução inerente ao ecossistema cripto, mas também uma resposta à crescente adoção institucional e à busca por maior clareza regulatória em mercados cruciais.
A institucionalização e a nova estrutura do mercado cripto
A institucionalização dos mercados cripto é uma força inegável em 2026. O advento e a popularidade dos ETFs de Bitcoin à vista, aprovados em janeiro de 2024, foram apenas o ponto de partida para uma onda de capital institucional que transformou a dinâmica do setor. Thomas Perfumo, da Kraken, destaca que veículos institucionais, como os ETFs listados nos EUA e empresas de tesouraria de ativos digitais, foram responsáveis por enormes fluxos de capital em 2024 e 2025, com os ETFs de BTC à vista nos EUA acumulando mais de US$ 21 bilhões em captação líquida.
Essa entrada de capital paciente e estruturalmente mais resiliente tem levado a uma redução da volatilidade do Bitcoin, que no final de 2025 registrou níveis semelhantes aos de ações de tecnologia de alto crescimento. O ativo passou a responder menos a eventos programados, como o halving, e mais à liquidez global, política monetária e fluxo institucional, conforme apontado em análise da Coinbase. A tokenização de ativos do mundo real (RWAs) emerge como uma das narrativas estruturais mais importantes, expandindo-se para além de fundos do Tesouro para commodities, crédito privado e ações públicas, com um crescimento de US$ 5,6 bilhões para quase US$ 19 bilhões em um único ano. A postura regulatória, antes adversária, agora mais colaborativa, facilita essa expansão.
Forças macroeconômicas e o novo ciclo do Bitcoin
O Bitcoin, que em 2025 foi impulsionado por expectativas elevadas e um ambiente macroeconômico mais favorável, agora enfrenta um cenário onde as forças macroeconômicas exercem uma influência ainda mais pronunciada. A Kraken, por meio de seu economista global, enfatiza que o ciclo do Bitcoin é cada vez mais moldado por fatores externos, como as decisões de política monetária de bancos centrais e as tensões geopolíticas. A perspectiva de cortes nas taxas de juros, por exemplo, tende a favorecer ativos alternativos como o Bitcoin, à medida que o prêmio de ativos mais seguros diminui.
A leitura da gestora 21Shares sugere que o clássico ciclo de quatro anos do Bitcoin perdeu protagonismo, com o halving, embora ainda relevante como roteiro monetário, tendo um impacto marginal decrescente. O Bitcoin estaria, portanto, migrando de ciclos de “boom e colapso” para um comportamento mais maduro, alinhado a um ativo macro. A Hashdex corrobora essa visão, afirmando que o mercado passou a ser ancorado por fluxos estruturais, e o ciclo de quatro anos já não define mais o ritmo, dada a proeminência das entradas institucionais, maior clareza regulatória e a integração ao sistema financeiro tradicional.
A Kraken, atenta a essa evolução, não apenas analisa as tendências, mas também se posiciona estrategicamente. A exchange planeja lançar um mercado de previsão em 2026, expandindo sua estratégia de ações tokenizadas através da aquisição da xStocks da Backed Finance. Além disso, a Kraken estaria avaliando uma oferta pública inicial (IPO) no início de 2026, com uma possível avaliação entre US$ 15 bilhões e US$ 20 bilhões, o que reforça o foco da empresa na conformidade e adesão regulatória como pilares para o seu crescimento e a atração de capital tradicional, conforme noticiado pelo CryptoNews Brasil. A expectativa de regulação nos EUA, destacada pelo Goldman Sachs, é um catalisador primordial para essa nova onda de adoção institucional.
Em suma, 2026 se desenha como um ano de consolidação e amadurecimento para os mercados cripto. A visão da Kraken reflete uma realidade onde a estrutura, a regulação e as forças macroeconômicas assumem o protagonismo, transformando o Bitcoin e os demais ativos digitais em componentes cada vez mais integrados e relevantes do cenário financeiro global. O futuro do mercado cripto, longe do hype, promete ser moldado por fundamentos mais sólidos e pela contínua evolução institucional.









