O mercado de milho nas regiões Sul e Centro-Oeste do Brasil enfrenta um período de estagnação, com a movimentação de negócios significativamente limitada. Produtores lidam com um descompasso acentuado entre a vasta oferta da safra recorde e uma demanda interna e externa mais retraída, resultando em estoques elevados e cotações pressionadas que dificultam a liquidez.
Essa paralisação reflete um cenário complexo, onde a abundância de grãos, impulsionada por condições climáticas favoráveis e expansão da área plantada, colide com um consumo que não acompanha o mesmo ritmo. As consequências são imediatas para a rentabilidade do produtor rural, que vê os preços abaixo dos custos de produção em muitas praças, gerando incerteza para a próxima temporada.
A situação atual se agrava pela dinâmica global. Embora o Brasil tenha se consolidado como um dos maiores exportadores de milho, a competitividade internacional e as flutuações cambiais adicionam uma camada extra de complexidade, afastando compradores em potencial e exacerbando a pressão sobre os preços domésticos. É um ciclo que exige atenção e estratégias de gerenciamento de risco.
Excesso de oferta pressiona cotações e rentabilidade
A principal mola propulsora para o travamento do mercado de milho é, sem dúvida, a robustez da colheita. A Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) tem reiteradamente revisado para cima suas estimativas para a safra de grãos. No 11º Levantamento da Safra de Grãos 2023/24, a Conab projetou uma produção de milho total de aproximadamente 111,04 milhões de toneladas, um volume considerável que, embora menor que a safra recorde anterior, ainda é mais do que suficiente para abastecer o mercado interno e garantir as exportações. Esse volume massivo exerce uma pressão baixista contínua sobre os preços, especialmente com a entrada da segunda safra (safrinha), que representa a maior parte da produção nacional.
O indicador ESALQ/BM&FBovespa para o milho, referência para o mercado físico, tem demonstrado quedas consistentes, refletindo a dificuldade de escoamento. Em regiões como Mato Grosso e Goiás, a abundância do grão e a falta de capacidade de armazenagem em algumas propriedades forçam os produtores a vender por valores que, por vezes, não cobrem sequer os custos variáveis de produção. Segundo análises da Scot Consultoria, a relação de troca entre o milho e insumos agrícolas tem se deteriorado, comprometendo a capacidade de investimento do agricultor para as próximas safras. Esse cenário desfavorável pode levar a uma redução da área plantada ou a um desinvestimento em tecnologia, impactando a produtividade futura.
Demanda enfraquecida e desafios logísticos
No lado da demanda, múltiplos fatores contribuem para o cenário de estagnação. Internamente, a indústria de proteína animal, grande consumidora de milho para ração, opera sob margens apertadas. Setores como avicultura e suinocultura enfrentam custos elevados de produção e uma demanda interna que, embora estável, não demonstra sinais de expansão vigorosa o suficiente para absorver o excedente de milho. Além disso, a produção de etanol de milho, embora crescente, ainda não tem escala para ser um fator decisivo na absorção da oferta recorde. O mercado de exportação também apresenta desafios. Apesar do volume considerável de milho exportado pelo Brasil, que alcançou 4,77 milhões de toneladas em maio de 2024, conforme dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), a concorrência global e a valorização do dólar em certos períodos tornam o produto brasileiro menos competitivo em mercados-chave. A China, um dos maiores importadores globais, diversifica suas fontes de suprimento, e a demanda europeia oscila conforme suas próprias safras e políticas comerciais.
Adicionalmente, os gargalos logísticos permanecem como um entrave significativo. O custo do frete do Centro-Oeste até os portos do Sul e Sudeste é um componente pesado na formação do preço final do milho, reduzindo a margem de lucro do produtor e a competitividade do produto brasileiro no exterior. A infraestrutura de transporte, embora em melhoria contínua, ainda não é plenamente capaz de lidar com a velocidade e o volume da colheita de grãos, gerando atrasos e custos adicionais que são repassados ao produtor.
O impasse no mercado de milho nas regiões Sul e Centro-Oeste sinaliza a urgência de estratégias que equilibrem a produção recorde com o escoamento eficiente e a valorização do produto. A superação desse cenário requer não apenas a estabilização dos preços globais, mas também o fortalecimento da demanda interna e a melhoria contínua da infraestrutura logística. Para os produtores, a gestão de risco e a busca por novas oportunidades de comercialização serão cruciais para navegar neste período de incertezas e garantir a sustentabilidade do setor.












