Recentes descobertas arqueológicas reacendem o debate sobre o canibalismo entre Neandertais, revelando práticas complexas que podem ter incluído o consumo de membros de outros grupos ou até mesmo de seus próprios. Pesquisadores analisam meticulosamente marcas em ossos encontrados em sítios europeus, buscando entender se a carne humana era vista como alimento, parte de rituais ou uma resposta à escassez. Este comportamento, outrora associado apenas a grupos humanos modernos, desafia percepções antigas sobre a inteligência e a cultura desses nossos primos extintos.

A imagem dos Neandertais como seres brutos e desprovidos de complexidade cultural tem sido progressivamente desfeita pela ciência. Estudos mostram que eles eram caçadores habilidosos, criavam ferramentas sofisticadas, cuidavam de seus doentes e até enterravam seus mortos. No entanto, a confirmação de práticas canibalísticas adiciona uma camada de nuance a essa compreensão, indicando que suas sociedades eram muito mais intrincadas e, por vezes, brutais do que se imaginava, levantando questões sobre a natureza de suas interações sociais e territoriais.

## Evidências arqueológicas e o canibalismo Neandertal

As evidências mais contundentes de canibalismo Neandertal vêm de diversos sítios arqueológicos na Europa. Um dos locais mais estudados são as Goyet Caves, na Bélgica, onde ossos de Neandertais datados de aproximadamente 40.000 a 45.000 anos atrás exibem marcas claras de corte, fraturas por percussão e remoção de medula óssea. Em 2016, um estudo publicado na *Scientific Reports* por Hélène Rougier e sua equipe detalhou essas marcas, que são idênticas às encontradas em ossos de animais consumidos por esses hominídeos. Isso sugere que o tratamento dado aos corpos humanos era o mesmo dispensado à caça.

Outro sítio crucial é El Sidrón, na Espanha, onde os restos mortais de doze Neandertais, incluindo adultos e crianças, apresentavam sinais de desarticulação, remoção de carne e fraturas para extração de medula. Segundo Antonio Rosas, paleoantropólogo do Museu Nacional de Ciências Naturais da Espanha e coautor de estudos sobre o local, as descobertas em El Sidrón indicam um episódio de canibalismo nutricional, possivelmente ligado a períodos de escassez de recursos. No entanto, a presença de rituais não pode ser totalmente descartada, pois a motivação por trás do consumo de carne humana pode variar.

## Canibalismo: subsistência, ritual ou rivalidade?

A natureza do canibalismo entre os Neandertais é um tema de intenso debate. Para alguns pesquisadores, como Marylène Patou-Mathis, do Museu Nacional de História Natural de Paris, as evidências apontam para um canibalismo alimentar, uma estratégia de sobrevivência em ambientes com recursos limitados. A extração de medula óssea e o processamento completo dos corpos sugerem um aproveitamento máximo das calorias e nutrientes disponíveis, sem grandes distinções entre carne humana e animal.

No entanto, a ideia de que Neandertais comiam seus rivais, ou seja, membros de outros grupos, também ganha força. A violência intergrupal não era incomum na pré-história, e o consumo do inimigo poderia ter um significado simbólico de dominação ou intimidação, além de ser uma fonte de alimento. A antropóloga Paola Villa, da Universidade do Colorado, em Boulder, em sua análise de vários sítios, sugere que o canibalismo poderia ser uma prática oportunista e multifacetada, adaptada às circunstâncias. A complexidade do comportamento Neandertal indica que não havia uma única razão para o canibalismo; ele poderia ser uma resposta à fome, um ato ritualístico ou uma consequência de conflitos territoriais, refletindo a dura realidade da vida na Idade da Pedra.

A pesquisa contínua, com o uso de novas tecnologias como a análise de isótopos e o sequenciamento de DNA antigo, promete desvendar ainda mais os mistérios por trás do comportamento canibalístico dos Neandertais. Essas descobertas não apenas aprofundam nosso conhecimento sobre esses hominídeos, mas também nos forçam a reavaliar a complexidade das interações sociais e das estratégias de sobrevivência em um passado distante, mostrando que a linha entre a necessidade e o ritual era tênue e multifacetada.