Enquanto o Japão celebra décadas de seu Shinkansen e a China planeja expandir sua vasta rede ferroviária de alta velocidade para 50.000 quilômetros até 2025, os Estados Unidos continuam a assistir a implementação de projetos significativos de trem-bala com lentidão e inúmeros obstáculos. Segundo informações do www.fastcompany.com, a ausência de um sistema robusto no país se deve a uma complexa teia de fatores estruturais, econômicos e políticos.
O professor de engenharia civil Stephen Mattingly, da Universidade do Texas em Arlington, aponta que a diferença entre trens convencionais (abaixo de 129 km/h), de alta velocidade (144 a 201 km/h) e de altíssima velocidade (acima de 241 km/h) não reside apenas na velocidade, mas na infraestrutura dedicada. Essa distinção fundamental expõe uma das maiores lacunas americanas: a falta de trilhos e sistemas projetados especificamente para a performance exigida, um contraste marcante com as nações que lideram o setor.
A ambição de modernizar o transporte ferroviário americano esbarra em uma realidade complexa, onde o planejamento e a execução de megaprojetos enfrentam resistências e desafios inerentes à vasta geografia e à dinâmica política do país. A infraestrutura existente, muitas vezes centenária e compartilhada com trens de carga, não é compatível com as exigências técnicas e de segurança de uma ferrovia de alta velocidade nos EUA, demandando a construção de linhas totalmente novas.
Custos exorbitantes e desafios de infraestrutura
Construir uma ferrovia de alta velocidade nos EUA é uma empreitada de custo proibitivo. A aquisição de terrenos, as complexas regulamentações ambientais, os processos de licenciamento e os elevados custos de mão de obra contribuem para que os projetos americanos sejam significativamente mais caros do que em outros países. Um relatório do Government Accountability Office (GAO) de 2018 destacou a escalada de custos como um dos principais entraves para a implementação de grandes projetos de infraestrutura de transporte.
O exemplo mais notório é o projeto de trem-bala da Califórnia, que ligaria Los Angeles a São Francisco. Concebido com grande otimismo, o projeto enfrentou atrasos massivos e um aumento exponencial de custos, com estimativas que já ultrapassam os 100 bilhões de dólares, segundo dados da California High-Speed Rail Authority. A necessidade de construir viadutos, túneis e pontes em terrenos variados e muitas vezes densamente povoados adiciona camadas de complexidade e despesa, tornando a viabilidade econômica uma equação difícil de fechar.
Geografia, planejamento urbano e concorrência
A vasta extensão territorial dos Estados Unidos e a menor densidade populacional entre muitas de suas grandes cidades, em comparação com corredores europeus ou asiáticos, representam um desafio geográfico. O modelo de cidades dispersas e a forte dependência do transporte rodoviário e aéreo já estabelecido dificultam a justificativa econômica para a construção de linhas de alta velocidade. Dados do U.S. Census Bureau mostram que, embora haja grandes concentrações urbanas, as distâncias entre elas são significativas, e muitas rotas potenciais carecem de massa crítica de passageiros para sustentar o investimento.
Além disso, o domínio do automóvel e a extensa rede de voos domésticos oferecem uma concorrência robusta. Para muitos americanos, a flexibilidade do carro ou a rapidez do avião são opções mais convenientes e, por vezes, mais econômicas para viagens de média e longa distância. A cultura de transporte enraizada no país exige uma mudança de paradigma que vai além da simples oferta de uma nova modalidade, envolvendo planejamento urbano, incentivos e uma reavaliação das prioridades de infraestrutura.
Apesar dos desafios, o debate sobre a ferrovia de alta velocidade nos EUA persiste. Pequenos avanços em corredores específicos, como a Flórida, mostram que, com investimento privado e rotas bem definidas, há um nicho. No entanto, a visão de uma rede nacional abrangente permanece distante, exigindo não apenas um compromisso financeiro monumental, mas também uma harmonização de interesses políticos, regulatórios e comunitários que, até agora, provaram ser barreiras difíceis de transpor.












