Em um movimento que reflete a crescente maturidade do mercado de ativos digitais, as recompras de tokens (token buybacks) voltaram a ser um tema central nas discussões sobre valorização e sustentabilidade de projetos. Essa estratégia, amplamente conhecida no mercado financeiro tradicional, ganha destaque no universo cripto, conforme noticiado por publicações como The Block em janeiro de 2026, que apontou o financiamento e o foco renovado nessas operações.

A prática consiste em um projeto de criptomoeda readquirir seus próprios tokens do mercado aberto. Frequentemente, esses tokens são então permanentemente removidos de circulação através de um processo conhecido como “queima” (burn). O objetivo principal é reduzir a oferta circulante, criando escassez e, teoricamente, impulsionando o valor dos tokens remanescentes.

No cenário atual, a busca por modelos econômicos mais robustos e menos dependentes de pura especulação leva muitos protocolos a adotarem essa abordagem. O interesse crescente em 2025 e início de 2026 sinaliza uma transição do entusiasmo efêmero para métricas de valor mais tangíveis e sustentáveis, alinhando os interesses dos projetos aos de seus detentores de tokens.

A ascensão da recompra e queima de tokens

A mecânica da recompra e queima é direta: utilizando a receita gerada pelo protocolo ou fundos da tesouraria, os projetos compram seus próprios tokens e os enviam para um endereço de queima, tornando-os irrecuperáveis. Essa ação é vista como um sinal de confiança na viabilidade de longo prazo do projeto, similar a uma empresa que recompra suas próprias ações para indicar otimismo.

Em 2025, o total de recompras em projetos reconhecidos ultrapassou US$ 1,4 bilhão, com uma média mensal de aproximadamente US$ 146 milhões. Gigantes do setor DeFi, como Hyperliquid, lideraram essa corrida, com mais de US$ 644 milhões em recompras até outubro de 2025 e um “run-rate” anual de cerca de US$ 1,2 bilhão. Outros projetos notáveis, como Aave, dYdX e Jupiter, também implementaram ou propuseram programas de recompra significativos.

A Optimism, por exemplo, anunciou em janeiro de 2026 uma proposta para destinar 50% da receita da Superchain para recompras mensais do token OP, começando em fevereiro de 2026, com uma estimativa de US$ 8 a US$ 9,1 milhões anuais. Essa estratégia visa não apenas reduzir a oferta e aumentar a escassez, mas também criar um ciclo virtuoso onde o sucesso do protocolo se traduz diretamente em valor para os detentores de tokens.

Desafios e o debate sobre a eficácia

Apesar do entusiasmo, as recompras de tokens não estão isentas de críticas e desafios. Uma análise da Messari, por exemplo, revelou que, para alguns projetos como Raydium, GMX e Synthetix, os programas de recompra falharam em evitar quedas acentuadas nos preços, mesmo após a implementação da estratégia. Isso sugere que a mera redução da oferta pode não ser suficiente se a demanda intrínseca pelo token for baixa ou se outros fatores de mercado prevalecerem.

Críticos apontam que o capital gasto em recompras poderia ser mais bem utilizado em investimentos para crescimento, segurança, incentivos de liquidez ou expansão do ecossistema. Além disso, a eficácia das recompras pode ser mitigada por novas emissões ou desbloqueios de tokens que compensam a oferta retirada de circulação. Há também o risco de escrutínio regulatório, com órgãos como a SEC podendo analisar a prática por possíveis manipulações.

A concentração de 92% dos US$ 1,4 bilhão em recompras nos 10 principais projetos em 2025 também levanta questões sobre uma dinâmica de “o vencedor leva tudo”, onde apenas os protocolos com lucratividade comprovada conseguem sustentar tais programas. Isso pode criar um gargalo para a inovação em estágios iniciais, pois investidores de risco passam a exigir lucratividade imediata.

Em suma, a recompra de tokens representa uma ferramenta poderosa na gestão da tokenomics, capaz de sinalizar confiança e potencialmente impulsionar o valor. Contudo, seu sucesso duradouro dependerá da capacidade dos projetos de equilibrar a escassez de curto prazo com a utilidade real e a sustentabilidade de longo prazo, fatores que continuam a moldar a evolução do mercado cripto em 2026 e além.