A Coreia do Sul, um dos mercados de criptoativos mais vibrantes e tecnologicamente avançados do mundo, vê sua ambiciosa legislação sobre ativos digitais estagnar devido a um debate acalorado sobre a emissão de stablecoins. O projeto de lei, conhecido como Digital Asset Basic Act (DABA), aguarda aprovação em meio a divergências cruciais sobre se bancos ou empresas de criptomoedas terão permissão para emitir essas moedas digitais atreladas a ativos tradicionais.
Este impasse regulatório não é apenas um entrave burocrático; ele reflete uma tensão fundamental entre a busca por inovação no setor de ativos digitais e a necessidade premente de proteger investidores e garantir a estabilidade financeira. O atraso na definição de regras claras para as stablecoins, que são um pilar da economia cripto, gera incerteza e pode frear o desenvolvimento do ecossistema local, um cenário que o governo sul-coreano busca evitar desde a crise da Terra/Luna em 2022.
A urgência de um arcabouço legal robusto é reconhecida pelo Financial Services Commission (FSC), o principal regulador financeiro do país, que tem trabalhado para estabelecer um sistema que equilibre oportunidades e riscos. No entanto, a complexidade inerente às stablecoins, particularmente sua potencial influência na política monetária e na estabilidade do sistema financeiro, tornou a questão central do DABA um nó difícil de desatar.
O dilema da emissão de stablecoins: Bancos versus empresas de criptoativos
A principal barreira para a aprovação do DABA reside no Artigo 11 do projeto, que trata especificamente da emissão de stablecoins. Autoridades reguladoras, lideradas pelo FSC e com o apoio do Banco da Coreia (BOK), inclinam-se para um modelo em que apenas instituições financeiras estabelecidas, como bancos comerciais, seriam autorizadas a emitir stablecoins. O argumento central é a maior capacidade dessas entidades de gerenciar riscos, manter reservas adequadas e garantir a proteção do consumidor, dada a sua supervisão rigorosa e experiência em lidar com grandes volumes de capital.
Entretanto, a indústria de criptoativos argumenta que restringir a emissão de stablecoins aos bancos sufocaria a inovação e centralizaria excessivamente o poder em um setor que prospera na descentralização. Empresas de cripto, como operadoras de exchanges e desenvolvedores de protocolos DeFi, defendem que elas próprias possuem a expertise tecnológica e os mecanismos de mercado para emitir e gerenciar stablecoins de forma segura, desde que sujeitas a uma regulamentação específica e transparente. Segundo relatos da CoinDesk, este debate tem sido um dos mais intensos nos bastidores das discussões legislativas.
A posição do governo sul-coreano reflete uma cautela observada em outras jurisdições globais. Por exemplo, a União Europeia, com seu regulamento MiCA (Markets in Crypto-Assets), estabelece diretrizes claras para a emissão de stablecoins, mas ainda permite que entidades não bancárias as emitam, desde que cumpram requisitos rigorosos de capital e supervisão. A decisão da Coreia do Sul terá implicações profundas sobre a estrutura competitiva do seu mercado de ativos digitais e sua capacidade de atrair investimentos e talentos.
Implicações para o mercado e o futuro da regulamentação
A paralisação do DABA devido à questão das stablecoins tem gerado apreensão entre investidores e empresas que operam no ecossistema sul-coreano. A ausência de um quadro legal abrangente cria um ambiente de incerteza, dificultando o planejamento estratégico e a entrada de novos participantes. O mercado de criptoativos na Coreia do Sul, que movimentou bilhões de wons em 2023, necessita de clareza para continuar seu crescimento de forma sustentável e segura.
A demora na legislação também coloca a Coreia do Sul em um dilema competitivo. Enquanto outras grandes economias avançam com suas próprias estruturas regulatórias para ativos digitais, o país corre o risco de ficar para trás na corrida pela liderança em inovação cripto. A clareza regulatória é um fator decisivo para a atração de talentos e capital, e o prolongamento deste impasse pode desviar investimentos para regiões com regimes mais definidos.
A resolução deste dilema exigirá um esforço de conciliação entre os reguladores e a indústria, buscando um ponto de equilíbrio que proteja os consumidores e a estabilidade financeira sem sufocar o potencial disruptivo dos ativos digitais. A forma como a Coreia do Sul abordará a emissão de stablecoins no DABA pode servir de precedente para outras nações, destacando a complexidade de integrar inovações financeiras em estruturas regulatórias tradicionais.












