Cientistas estão desvendando uma zona de terremotos oculta e surpreendentemente complexa sob o norte da Califórnia, ao rastrear enxames de pequenos tremores fracos demais para serem sentidos. Esta pesquisa, publicada na revista Science em 15 de janeiro de 2026, revela o que se esconde onde a Falha de San Andreas encontra a zona de subducção de Cascadia, uma das regiões sísmicas mais perigosas da América do Norte.

As descobertas desafiam suposições antigas sobre a geologia da região e fornecem novas pistas cruciais sobre os riscos de terremotos em uma área já conhecida por sua alta atividade sísmica. O estudo representa um avanço significativo na compreensão das forças tectônicas que moldam a costa oeste dos Estados Unidos.

A colaboração envolveu pesquisadores do Serviço Geológico dos EUA (USGS), da Universidade da Califórnia, Davis (UC Davis), e da Universidade do Colorado Boulder. Eles se concentraram na Junção Tripla de Mendocino, localizada na costa do condado de Humboldt, onde três grandes placas tectônicas convergem.

A complexidade oculta sob a costa da Califórnia

A estrutura subsuperficial da costa californiana, onde a Placa do Pacífico e a Placa Norte-Americana se encontram com a Placa Gorda, é muito mais complicada do que se imaginava. O desafio é similar a estudar um iceberg, onde apenas uma pequena parte é visível na superfície, segundo David Shelly, do Centro de Riscos Geológicos do USGS, um dos autores do estudo.

Para desvendar essa estrutura oculta, a equipe utilizou uma densa rede de sismômetros capazes de registrar terremotos de baixa frequência extremamente pequenos, milhares de vezes mais fracos do que os que podem ser sentidos. Esses microabalos ocorrem onde as placas tectônicas deslizam lentamente umas contra as outras.

A pesquisa revelou que a região não possui apenas as três placas principais, mas sim cinco ‘pedaços’ em movimento, com dois deles escondidos profundamente. Um desses é o “Fragmento Pioneer”, um pedaço de uma placa oceânica antiga que se move lateralmente com a Placa do Pacífico, intensificando a fricção e a tensão na Falha de San Andreas.

Redefinindo o risco sísmico e a Falha de San Andreas

Este modelo atualizado ajuda a explicar anomalias sísmicas passadas, como o terremoto de magnitude 7.2 em 1992, que ocorreu em uma profundidade muito menor do que o esperado. A superfície que está sendo empurrada sob a América do Norte não é tão profunda quanto os cientistas acreditavam anteriormente, indicando que o limite da placa não está onde se pensava.

A compreensão dessa complexidade é vital para a previsão de riscos sísmicos. A Falha de San Andreas, que se estende por cerca de 1.300 quilômetros na Califórnia, é conhecida por sua intensa atividade tectônica e potencial destrutivo. A interação com a zona de subducção de Cascadia e os fragmentos de placas recém-descobertos sugerem um sistema de tensões interconectadas.

De fato, estudos recentes indicam que grandes terremotos na zona de subducção de Cascadia podem desencadear eventos igualmente destrutivos na região norte da Falha de San Andreas, ampliando significativamente o risco sísmico para a Califórnia e o noroeste do Pacífico. A Universidade da Califórnia, Davis, por exemplo, mantém um plano sísmico robusto para suas instalações de saúde, sublinhando a importância da preparação contínua diante desses riscos.

A descoberta desses segredos ocultos sob a Califórnia, revelados por minúsculos terremotos, sublinha a dinâmica imprevisível das placas tectônicas. Para o futuro, aprofundar o monitoramento e a pesquisa nessas zonas complexas será fundamental para refinar os modelos de previsão e fortalecer as estratégias de mitigação de desastres. A ciência continua a nos alertar sobre a necessidade de estarmos preparados para os desafios geológicos que o planeta nos apresenta.