A estabilidade financeira global, por décadas ancorada no papel do dólar como principal moeda de reserva, enfrenta questionamentos crescentes. Lideranças políticas erráticas e tensões geopolíticas têm levantado dúvidas sobre a sustentabilidade dessa dependência, impulsionando discussões sobre um sistema monetário internacional mais diversificado.
A hegemonia do dólar, estabelecida no pós-guerra, concedeu aos Estados Unidos um ‘privilégio exorbitante’, permitindo-lhes financiar déficits e influenciar as finanças globais de maneira singular. No entanto, a recente volatilidade na política externa americana e os atritos com instituições internacionais têm exposto a vulnerabilidade dessa dependência para outras nações.
Essa conjuntura, ilustrada pelos ataques do ex-presidente Donald Trump ao Federal Reserve e suas políticas externas desestabilizadoras, como a ameaça de bombardeio ao Irã, reacendeu o debate sobre a necessidade de um sistema multicurrency. É um momento propício para refletir sobre as dinâmicas que mantiveram o sistema monetário internacional estável por meio século, e se elas ainda se sustentam.
Desafios crescentes à hegemonia americana
A confiança na liderança americana, um pilar da dominância do dólar, tem sido abalada por uma série de eventos. A percepção de que os Estados Unidos podem, por vezes, usar sua moeda como ferramenta de política externa, através de sanções ou outras medidas, incentiva países a buscar alternativas e reduzir sua exposição ao risco cambial. Essa dinâmica geopolítica tem acelerado um movimento de diversificação.
Dados recentes do Fundo Monetário Internacional (FMI) indicam uma lenta, mas consistente, reconfiguração das reservas cambiais globais. Embora o dólar ainda domine, sua participação nas reservas cambiais globais reportadas ao FMI caiu ligeiramente para 56,92% no terceiro trimestre de 2025. Esse movimento, ainda que modesto, reflete uma reavaliação estratégica por bancos centrais para mitigar riscos e buscar maior autonomia financeira.
O caminho para um sistema multicurrency
A visão de um sistema multicurrency não implica necessariamente o colapso do dólar, mas sim a ascensão de outras moedas e blocos econômicos com maior peso nas transações e reservas globais. O euro, o yuan chinês e até mesmo o ouro e criptoativos têm sido discutidos como componentes potenciais de uma nova arquitetura financeira. A crescente digitalização e a busca por eficiências transacionais também impulsionam essa discussão, com moedas digitais de bancos centrais (CBDCs) ganhando destaque.
Especialistas como Paola Subacchi, em sua análise para o Project Syndicate, argumentam que a dependência do dólar se tornou uma vulnerabilidade. Ela destaca que a imprevisibilidade da política americana sublinha a necessidade de um sistema com múltiplas moedas de reserva, onde nenhum país detém um poder excessivo sobre o sistema financeiro global. Este movimento, embora gradual, representa uma mudança fundamental na dinâmica de poder econômico global.
O futuro do dólar, portanto, não parece ser de um declínio abrupto, mas sim de uma redefinição gradual de seu papel em um cenário global mais complexo e multipolar. A busca por maior resiliência e a redução da dependência de uma única moeda impulsionarão a evolução para um sistema financeiro internacional mais distribuído, onde diferentes moedas e blocos econômicos dividirão o palco, reequilibrando as relações de poder e a estabilidade global.












