A segurança pública no Brasil, tema de debate constante e preocupação crescente, exige uma abordagem séria e contínua, muito além das promessas e slogans de campanhas eleitorais. A tese, reiterada por diversos especialistas e veículos como o Estadão, sublinha a necessidade de políticas de Estado robustas e baseadas em dados, em vez de iniciativas paliativas e imediatistas com fins políticos.
Historicamente, a pauta da segurança pública tem sido um terreno fértil para candidatos em busca de votos, transformando a complexidade do tema em bandeiras simplistas. Essa instrumentalização política, no entanto, impede o avanço de soluções estruturais e compromete a eficácia das ações, deixando a população refém de ciclos de violência e impunidade. A urgência de desassociar a segurança da retórica eleitoreira nunca foi tão evidente, especialmente diante de índices criminais que desafiam a resiliência social e econômica do país.
O impacto da criminalidade transcende as estatísticas, afetando diretamente a qualidade de vida, a confiança nas instituições e o desenvolvimento econômico. Empresas hesitam em investir, cidadãos se sentem vulneráveis e a máquina pública desvia recursos para emergências ao invés de investir em prevenção e inteligência. É um ciclo vicioso que demanda uma visão de longo prazo e compromisso suprapartidário.
A armadilha do imediatismo na segurança pública
A tentação de apresentar soluções mágicas para problemas complexos de segurança pública é uma constante no cenário político. Essa busca por resultados rápidos, muitas vezes visando o próximo pleito, leva à implementação de medidas isoladas, sem coordenação ou avaliação de impacto. Segundo o Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP), a flutuação nas taxas de criminalidade em alguns estados frequentemente reflete mais a descontinuidade de projetos do que a efetividade de novas propostas. Por exemplo, a militarização excessiva ou o aumento pontual de efetivo, sem investimento em inteligência e investigação, tendem a gerar apenas um deslocamento do crime, não sua erradicação.
Especialistas como Dr. Renato Sérgio de Lima, diretor-presidente do FBSP, frequentemente apontam que “a segurança pública não se resolve com bravatas ou ações pontuais, mas com planejamento estratégico, integração entre as forças e investimento contínuo em tecnologia e capital humano”. A falta de uma política de Estado, que transcenda governos e partidos, é um dos maiores entraves para a construção de um ambiente mais seguro, perpetuando a sensação de insegurança e a descrença nas instituições.
Dados e estratégias: o caminho para uma gestão de segurança eficaz
Contrariando a lógica eleitoral, a gestão de segurança pública de sucesso se fundamenta em evidências, análise de dados e cooperação interfederativa. Experiências bem-sucedidas, como a redução de homicídios observada em algumas capitais que implementaram programas focados em áreas quentes e inteligência policial, demonstram que o investimento em tecnologia e a formação continuada dos agentes são mais eficazes que medidas populistas. Um estudo do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA) ressalta a importância de programas de prevenção social e ressocialização, que atacam as raízes da criminalidade, e não apenas seus sintomas.
A integração de bases de dados criminais, a modernização das polícias, a valorização das carreiras e a fiscalização rigorosa das políticas são pilares para uma segurança pública que realmente serve ao cidadão. É um desafio que exige não apenas recursos, mas também maturidade política para construir consensos e manter projetos de longo prazo, mesmo diante da alternância de poder. Uma matéria do Estadão de 2023 reforçou essa visão, criticando a superficialidade de propostas que ignoram a complexidade do crime organizado e a necessidade de reformas estruturais. Ainda, um estudo da Universidade de São Paulo (USP) sobre criminologia urbana reforça que a articulação entre academia, sociedade civil e poder público é vital para a construção de políticas mais eficazes e menos suscetíveis a flutuações políticas.
A despolitização da segurança pública é um imperativo para o Brasil. Somente ao tratar o tema com a seriedade e o rigor técnico que ele exige, focando em políticas de Estado duradouras e baseadas em evidências, será possível construir um futuro onde a segurança não seja uma promessa vazia, mas uma realidade para todos os cidadãos. O caminho é longo, mas passa necessariamente pela ruptura com a lógica do marketing eleitoral e pela adoção de uma gestão pública comprometida com resultados concretos e a longo prazo.












