O Banco da Tailândia (BoT) está fortalecendo seu monitoramento sobre as negociações de ‘dinheiro cinza’ que utilizam criptoativos como o USDT (Tether). Esta iniciativa visa combater a lavagem de dinheiro e outras atividades ilícitas que podem comprometer a integridade do sistema financeiro do país, conforme reportagens recentes indicam.

A vigilância intensificada reflete uma preocupação crescente com a forma como as stablecoins, apesar de sua crescente aceitação no mercado regulado, podem ser exploradas para fins escusos. O termo ‘dinheiro cinza’ abrange fundos transacionados por meios não regulamentados ou de origem questionável, demandando atenção constante das autoridades.

Embora a Comissão de Valores Mobiliários (SEC) da Tailândia tenha aprovado o uso de USDT para negociação em bolsas regulamentadas a partir de março de 2025, essa medida coexiste com uma postura cautelosa do banco central em relação aos riscos associados às criptomoedas.

A complexa relação entre regulamentação e ilícitos

A Tailândia adota uma abordagem de duas frentes para os ativos digitais. Por um lado, a aprovação do USDT e USDC para negociação em bolsas locais regulamentadas sinaliza uma abertura para a inovação e o reconhecimento do papel das stablecoins no mercado. Essa permissão permite que as stablecoins lastreadas em dólar americano sejam listadas em plataformas tailandesas, oferecendo mais opções para investidores e provedores de liquidez.

Por outro lado, o Banco da Tailândia mantém uma postura restritiva quanto ao uso de criptomoedas para pagamentos, citando preocupações com a volatilidade dos preços, riscos cibernéticos e, crucialmente, a lavagem de dinheiro. Essa dualidade regulatória é evidente nos esforços contínuos para combater fraudes. Em novembro de 2025, autoridades tailandesas, com o apoio do FBI, recuperaram milhões em criptomoedas, incluindo USDT e Bitcoin, de cibercriminosos.

Além disso, para proteger os investidores e evitar que plataformas não autorizadas sirvam como canais de lavagem de dinheiro, a SEC da Tailândia anunciou em maio de 2025 o banimento de corretoras de criptomoedas como OKX e Bybit. Essas ações sublinham a determinação do governo em criar um ambiente seguro, mesmo enquanto integra novas tecnologias financeiras.

Stablecoins no epicentro da vigilância financeira

As stablecoins, como o USDT, são projetadas para manter um valor estável em relação a uma moeda fiduciária, como o dólar americano, o que as torna atraentes para transações e remessas internacionais, inclusive em mercados emergentes. Essa característica, que as torna valiosas para o comércio legítimo, também as torna suscetíveis ao uso indevido em atividades de ‘dinheiro cinza’.

O governador do Banco da Tailândia, Vitai Ratanakorn, indicou em janeiro de 2026 que o país está intensificando a repressão ao ‘dinheiro cinza’ em setores como o ouro e as criptomoedas, impondo limites diários para transações em moeda estrangeira por indivíduos. A vigilância do BoT não é novidade; em 2021, o banco alertou contra stablecoins atreladas ao baht tailandês, como o Thai Baht Digital (THT), classificando-as como ilegais devido a riscos de lavagem de dinheiro e fragmentação do sistema monetário nacional.

Contudo, o BoT também tem sido proativo na exploração da tecnologia blockchain, desenvolvendo sua própria moeda digital de banco central (CBDC) sob o Projeto Inthanon e operando um sandbox regulatório para testar tecnologias de ledger distribuído. Essa abordagem permitiu que instituições como o Siam Commercial Bank (SCB) lançassem serviços de remessa de stablecoins em outubro de 2024, após testes bem-sucedidos no ambiente regulatório.

A situação na Tailândia ilustra o desafio global de equilibrar a inovação dos ativos digitais com a necessidade de proteger a estabilidade financeira e combater o crime. À medida que as stablecoins ganham mais espaço no ecossistema financeiro, a vigilância regulatória sobre as transações de ‘dinheiro cinza’ continuará a ser uma prioridade, exigindo uma colaboração crescente entre reguladores e a indústria para garantir um ambiente financeiro transparente e seguro. Este cenário dinâmico sugere que as autoridades tailandesas continuarão a refinar suas estratégias, adaptando-se às novas facetas do mercado de criptoativos.