O Generic Protocol lançou o GUSD, uma stablecoin que promete privacidade nativa e um novo modelo de roteamento de rendimentos diretamente aos usuários, em um momento crucial onde o Congresso dos EUA intensifica o escrutínio sobre os retornos de stablecoins e a economia dos emissores. Este movimento posiciona o GUSD na intersecção de dois dos debates mais acalorados no universo cripto: quem deve capturar o rendimento gerado pelas stablecoins e se o dinheiro que preserva a privacidade pode coexistir com blockchains públicas sem depender de emissores centralizados.

A iniciativa do Generic Protocol surge em um cenário regulatório em constante evolução nos Estados Unidos, onde legisladores buscam estabelecer um arcabouço claro para os ativos digitais. A discussão central gira em torno da lucratividade das stablecoins e seu impacto potencial no sistema financeiro tradicional. Bancos e instituições financeiras têm demonstrado preocupação com a possibilidade de uma significativa saída de depósitos para o ecossistema cripto, caso as stablecoins com rendimento não sejam devidamente regulamentadas.

A tensão é palpável, com propostas legislativas visando proibir o pagamento de juros passivos sobre stablecoins. Enquanto isso, o Generic Protocol busca redefinir o modelo, oferecendo uma alternativa que prioriza a descentralização e a redistribuição de valor, ao mesmo tempo em que endereça a crescente demanda por privacidade em transações digitais.

A inovação do GUSD e a privacidade no blockchain

O GUSD do Generic Protocol se distingue como a primeira stablecoin nativamente privada, introduzindo um modelo de “meta-stablecoin” que agrega dólares existentes como USDC, USDT e USDS. Em vez de permitir que os emissores retenham o rendimento gerado por esses ativos, o protocolo redireciona os retornos para a camada de distribuição, incluindo aplicativos, redes e usuários finais. Segundo Anthony Leutenegger, CEO da Aragon e fundador do Generic, o objetivo é realinhar os incentivos em toda a pilha de stablecoins, garantindo que o rendimento seja desvinculado do ativo em si e que os parceiros possam decidir como retransmitir esse valor ao ecossistema de forma descentralizada.

A privacidade é um pilar fundamental do GUSD, com funcionalidades nativas e opcionais que permitem aos usuários ocultar saldos e transações, mantendo o acesso aos rendimentos. Este design evita dependências diretas de emissores e é estruturado como uma camada não custodial no Ethereum, com suporte de gerenciamento de risco e implantação fornecido pela Steakhouse Financial. Leutenegger ressalta que essa privacidade é “crítica para pagamentos”, melhorando a velocidade e a confidencialidade das transações. A abordagem do Generic Protocol busca demonstrar que é possível ter dinheiro que preserva a privacidade em blockchains públicas, sem a necessidade de emissores centralizados.

O embate regulatório no Congresso e o rendimento das stablecoins

Nos Estados Unidos, o Congresso está imerso em uma batalha para criar uma estrutura regulatória abrangente para as stablecoins. Projetos de lei como o GENIUS Act de 2025 e o CLARITY Act estão no centro do debate, com um foco particular na questão do rendimento. O Bank of America, por meio de seu CEO Brian Moynihan, alertou que a ausência de restrições aos rendimentos das stablecoins poderia desviar até US$ 6 trilhões em depósitos dos bancos tradicionais, o que representa entre 30% e 35% do total de depósitos bancários comerciais nos EUA. Esse êxodo de capital, argumentam os banqueiros, minaria a capacidade dos bancos de conceder empréstimos e apoiar a economia local.

A versão mais recente do CLARITY Act inclui uma provisão que proíbe provedores de serviços de ativos digitais de pagar juros ou rendimentos “unicamente pela posse de uma stablecoin de pagamento” (rendimento passivo). No entanto, a legislação faz uma distinção importante, permitindo recompensas baseadas em atividades, como staking, fornecimento de liquidez ou participação na governança do protocolo. Ainda assim, bancos comunitários expressam preocupação com uma possível “brecha” que permitiria a exchanges e afiliados oferecerem recompensas, mesmo que o emissor direto da stablecoin não o faça. A indústria cripto, por sua vez, critica as restrições, vendo-as como uma tentativa dos bancos de eliminar a concorrência.

A aposta do Generic Protocol em um modelo de stablecoin privada e com rendimentos roteados diretamente aos usuários adiciona uma camada de complexidade e inovação a este cenário. Enquanto o Congresso dos EUA luta para equilibrar a inovação com a proteção financeira, a trajetória de stablecoins como o GUSD será um teste crucial para o futuro da regulamentação cripto. O desfecho dessas discussões definirá não apenas o destino dos rendimentos em ativos digitais, mas também o papel da privacidade e da descentralização na próxima era das finanças digitais.