Um executivo da Coinbase, uma das maiores plataformas de criptoativos do mundo, alertou que os Estados Unidos podem ceder uma vantagem estratégica crucial à China se proibirem o pagamento de juros sobre stablecoins. A medida regulatória, visando a segurança e estabilidade financeira, arrisca frear a inovação e o capital no mercado cripto americano, potencialmente impulsionando o avanço digital de Pequim em um cenário global de intensa competição.

Stablecoins, moedas digitais atreladas a ativos estáveis como o dólar americano, são pilares do ecossistema cripto, oferecendo um porto seguro em meio à volatilidade. A capacidade de gerar rendimento através de empréstimos e outros mecanismos de finanças descentralizadas (DeFi) tem sido um atrativo significativo para investidores e desenvolvedores. Contudo, reguladores americanos, incluindo o Presidente’s Working Group on Financial Markets, têm explorado a ideia de tratar emissores de stablecoins como bancos, o que poderia levar à restrição de ofertas de juros, conforme relatório do Departamento do Tesouro dos EUA em 2021.

Essa discussão regulatória acontece em um momento crítico, onde nações ao redor do mundo correm para estabelecer domínio nas finanças digitais. A China, em particular, tem feito progressos notáveis com o seu yuan digital (e-CNY), uma Moeda Digital de Banco Central (CBDC) que já está em fase avançada de testes e adoção.

O impacto da regulamentação americana na inovação

O argumento central de Paul Grewal, Chief Legal Officer da Coinbase, e de outros defensores da inovação cripto, é que a proibição de juros em stablecoins nos EUA desincentivaria tanto o capital quanto o talento a permanecer no país. Em um mercado globalizado, onde a inovação é rápida, jurisdições com regulamentações mais flexíveis ou que incentivam o desenvolvimento de novos produtos financeiros poderiam atrair esses recursos.

“Se os Estados Unidos se recusarem a permitir que os usuários ganhem juros em stablecoins, é provável que a inovação e o capital migrem para outros lugares”, afirmou Grewal em diversas ocasiões, ecoando preocupações da indústria. A proposta de regulamentação visa proteger os consumidores e a estabilidade financeira, mas críticos argumentam que ela poderia ter o efeito não intencional de sufocar a competitividade americana no setor de tecnologia financeira. A ausência de rendimento sobre stablecoins poderia torná-las menos atraentes em comparação com alternativas que oferecem retornos, sejam elas centralizadas ou descentralizadas em outras jurisdições.

A estratégia da China e a corrida global por supremacia digital

Enquanto os EUA debatem a regulamentação de stablecoins e o futuro dos juros, a China avança com sua própria agenda de finanças digitais. Pequim já baniu as criptomoedas privadas, mas investe maciçamente no yuan digital (e-CNY), que serve a múltiplos propósitos estratégicos: aumentar o controle financeiro interno, otimizar pagamentos e, a longo prazo, desafiar a hegemonia do dólar americano nas transações internacionais. O e-CNY oferece um sistema de pagamento eficiente e rastreável, sob total controle do Banco Popular da China.

A potencial restrição americana sobre a remuneração de stablecoins poderia, ironicamente, fortalecer a posição chinesa. Se o capital e os desenvolvedores buscarem ambientes mais favoráveis à inovação em finanças digitais, eles poderiam se voltar para mercados onde as CBDCs ou stablecoins regulamentadas oferecem mais oportunidades. Isso poderia acelerar a adoção e o desenvolvimento de alternativas ao ecossistema financeiro dominado pelo dólar, incluindo o yuan digital. A pesquisa do Banco de Compensações Internacionais (BIS) frequentemente destaca a corrida entre CBDCs e stablecoins como um fator chave na evolução do dinheiro.

A decisão dos Estados Unidos sobre a permissão de juros em stablecoins transcende a mera regulamentação de criptoativos; ela moldará o futuro da inovação financeira global. Um passo em falso pode ceder terreno à China, que avança com sua própria moeda digital, redefinindo o equilíbrio de poder econômico e tecnológico no cenário internacional. A balança entre segurança e inovação requer um equilíbrio delicado para que os EUA não percam sua liderança em um dos setores mais dinâmicos da economia global.